La Julieta

É inegável que cada nova produção de um diretor tão particular como Almodóvar é recebida com expectativas e ansiedade pelo público. E Julieta não desaponta (de todo) essa expectativa. Ainda que não esteja entre as obras mais marcantes do diretor, ela tem seus méritos e particularidades. E seu ponto forte está justamente na protagonista que dá nome ao filme.

Famoso principalmente pelo universo feminino que explora em suas narrativas e em especial às personagens femininas marcantes que costuma construir, Almodóvar traz agora uma obra batizada com o nome da protagonista. E é com maturidade e sensibilidade que ele se entrega a essa personagem-título, cuja construção é cuidadosa e evidencia o domínio da direção nesse processo, um domínio claro sobre que mulher é essa que ele quer “parir” agora, nesse momento particular em que importantes debates em torno das mulheres e suas representações vêm irrompendo.

Imagem relacionada

Julieta é apresentada em duas fases da vida: a juventude e a meia-idade, bastante distintas, como se representassem duas personagens diferentes e quiçá opostas. E é nessa quase-dualidade da sua própria figura que se desenrola o mistério da trama, um melodrama por natureza. As atrizes que dão vida à Julieta, Emma Suárez e Adriana Ugarte, ambas atuações fortes, são novatas na filmografia do diretor. A narrativa centra-se na Julieta-mãe (Emma Suárez) que escreve uma carta à filha ausente na espera de um reencontro – para esclarecimentos e perdão. Através dessa narração, o filme passeia pelas distintas fases da vida da personagem, e aos poucos vamos compreendendo seus dramas, encantos e dores. A história vai-se construindo nessas idas e vindas entre passado e presente, gerando expectativas e mistérios. E, como melodrama que se preze, o filme vai criando picos de expectativas /clímax, entre memórias e tempo presente, guiando não só o caminho que a narrativa vai tomando, mas também o envolvimento de quem a vê.

O roteiro se baseia em três contos da escritora canadense Alice Munro e é importante destacar isso quando falamos de um diretor que costuma assinar roteiro e direção. Talvez essa seja uma questão inseparável ao se pensar e apreciar Julieta, essa figura que não se parece com outras protagonistas do autor, tipificadas como “mulheres fortes e intensas”, com a histeria e exageros típicos, mas que não deixa de ser também uma personagem rica, humana e muito forte à sua maneira. E Julieta talvez seja a personagem mais humana e real de Almodóvar. Ela é uma mulher de carne e osso e é fácil senti-la. A empatia é quase natural. O trunfo do longa é trazê-la em seus distintos momentos da vida e é aqui que o cuidado da direção acerta: por mais que seja óbvio a escolha de duas atrizes para interpretar uma mesma personagem em distintas idades, aqui essa escolha traz para a narrativa a sensação de transição, de maturidade e de tempo, de uma forma sutil.

O lidar com a perda é questão central no filme, não só a perda familiar, mas a perda do rumo e o rearranjar-se no imprevisível. A história caminha nesse sentido de mostrar como Julieta vai lidando com as tragédias que cruzaram seu caminho. Narrativamente, Julieta não tem nada de extraordinário, talvez até o contrário. O ritmo do filme é mediano e há momentos em que se torna cansativo a expectativa de que algo quebre a monotonia, e, ainda que seja essa a intenção do roteiro, quem o vê está sempre esperando mais dos fatos e dos diálogos. E assim, o envolvimento que o espectador vai criando com a obra, e que é tão especial, fica com a corda no pescoço.

Diferente de outros cânones do diretor, como o intenso e Volver, Julieta é menos “histérico”, exagerado, e mais sensível. A excelência técnica não deixa a desejar. A fotografia, as cores intensas e os enquadramentos criam uma imagem fílmica elegante e impecável. Imagem essa que traz um refinamento especial, mais ordenado e cuidadoso na tela – as cores criam um clima de uma elegância típica da meia-idade. Essas nuances no jogo de câmera, de tons e de elementos da mise-en-scène são ponto forte que tornam essa uma das obra mais humana e sensíveis de Almodóvar. Os planos quase sempre trazem um equilíbrio de cores e fotografia, o vermelho é acentuado ou acalmado com sombras ou elementos de cena cuidadosamente escolhidos e posicionados. As estampas traduzem os sentimentos e o clima de cada cena, e em especial o estado de Julieta.

Resultado de imagem para julieta almodovar

Julieta é um filme denso, sensível, sutil. A sutileza está no envolvimento com o filme. Há muita expectativa gerada, nem tudo é bem trabalhado, o que o torna dramaticamente mediano. Mas o marcante, talvez, sejam as sutilezas que amarram o espectador. Não são os principais mistérios que prendem, mas a figura de Julieta como uma personagem humana, real, com falhas e males reais, contrapondo à figura que esperamos quando vamos ao seu encontro. É fácil (e possível) se aproximar de Julieta. O diretor parece saber que o espectador vai estar desconfiado, a princípio, mas ele o convida a conhecer essa nova mulher. E é no mínimo curioso assistir a esse momento em que a obra e a protagonista levam um só nome.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s