Urutal – terror e angústia

(Texto escrito para a Oficina de Escrita Crítica do Panorama Coisa de Cinema 2016 e originalmente disponibilizado no site Pílulas Críticas, em 17 de novembro)

urutau

Ainda que busque sempre fugir do clichê impossível de definir qualquer coisa em uma só palavra, Urutal tornou esse feito real. “Perturbador” define o longa de Bernardo Cancella Nabuco, que traz para a sala escura e a tela cheia um tema extremamente delicado, psicologicamente violento e desconfortável. Narrativa e tecnicamente pertubador, o filme é estranho, incômodo e (outra vez) violento. A abordagem de estupro e de abusos/violências sexuais nas tramas cinematográfica caminha sempre com a corda no pescoço – qualquer mínima escolha de enquadramentos, movimentos de câmera e mise-èn-scene pode facilmente cair na armadilha de distorção da gravidade dos fatos (risco de culpabilizar vítimas, fetichizar a violência, etc). Urutal escorrega e cai na narrativa genérica que propõe chocar, mas que, encoberta por qualidade técnica, problematiza pouco uma questão tão delicada.

Fernando é um jovem com aparência infantil, frágil e tímida vivendo em um cubículo imundo e sem estrutura, com a presença de um homem mais velho (Josias), cuja relação com o jovem vai ficando mais clara no decorrer do thriller: um pedófilo abusivo que o mantém preso em cativeiro. Josias surge com um bolo para celebrar “mais um ano juntos” e Fernando parece ignorar a presença do homem, desviando o olhar. A vela do bolo tem o número 7: sete anos juntos? Ou sete é a idade perfeita para a perversão de Josias?

O filme já começa com uma cena de sexo entre dois homens, filmada numa perspectiva horizontal com os rostos em primeiro plano e Fernando enfatizado na câmera. A trilha fica por conta dos gemidos e sons do ato. A escolha narrativa do diretor traz sempre Fernando em destaque nas cenas – os enquadramentos e a iluminação se encarregam disso. A fotografia e o som são muito bem trabalhados dentro da perspectiva que o filme quer adotar para trabalhar a construção dos personagens e da situação: não há trilha sonora e tudo que se ouve são as correntes, cadeados e gemidos, tudo orquestrado para perturbar quem acompanha as cenas.

Josias aparece como um ser oculto e nublado, uma imagem de pesadelo. É dele a maior parte das falas do filme, mas sua imagem é sempre escura, de costas, ausente do plano. Ele é sempre enquadrado de modo a não estar nitidamente em cena. Se a intenção é mostrar Josias como um monstro escuro, o filme o faz bem, mas essa escolha parece privilegiar a vítima como centro do espetáculo. É a ele que o filme recorre quase desesperadamente para arrancar o espanto do espectador. É Fernando o elemento de “impactação”, afinal, quem vê o longa vê sempre Fernando e suas expressões fortes e marcadas. Em resumo: é pela vítima que a repulsa é gerada e não o contrário. Evidentemente que não é obrigação primeira do cinema problematizar e tensionar tudo e o tempo todo e não quero exigir do filme tal postura, mas é inegável que por tocar questões delicadas, faz-se necessária uma preocupação e esforço nesse aspecto.

Urutal é um filme difícil. A pedofilia é uma das maiores barbáries humanas e o diretor propõe um filme tão “ruim” quanto se merecia – ruim pelo incômodo da experiência estética e por não oferecer uma nova ótica/abordagem. É como pensar que, já que a pedofilia é tão absurda, faremos escolhas também absurdas, e isso não é o problema em si. Mas o filme traz Fernando como um ser incapaz de expressar resistências, mesmo quando uma luz no fim do túnel traz a possibilidade da fuga. E aí o filme se torna difícil porque dá ao monstro a menos pior das punições e a vítima parece demonstrar vínculo afetivo com seu algoz, frustrando a expectativa de um desfecho outro diferente deste que se repete em outras narrativas. Mesmo com toda complexidade da consciência de quem vive um inferno como este, em Urutal temos mais do mesmo: não há saída.

Filme visto no Panorama Internacional Coisa de Cinema 2016

Data de lançamento: novembro de 2015 (Brasil)
Direção: Bernardo Cancella Nabuco
Produção: Bernardo Cancella Nabuco
Fotografia: Fernando March
Elenco: Nicolas Sambraz, Gerson Delliano
Roteiro: Bernardo Cancella Nabuco, Leandro Bacellar

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