De repente.. a vida!

A Vida de Outra Mulher (La Vie d’une Autre)/2012

*Busquei aleatoriamente um filme com Juliette Binoche (sim, eu merecia ela em uma noite de domingo!) e encontrei esse francês, da Sylvie Testud, com cara de romance leve rotineiro. Mas vamos lá:

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Não é romance leve rotineiro! (Bah!) É um drama leve (alguém definiu como comédia romântica, sqn), mas que pega os desavisados pela ferida: daqueles dramas corriqueiros, bonitinhos, que quando você menos espera, abre (in)voluntariamente aquele sorrisinho besta, e, no fim, fica pensando sobre ele por muitas horas. Quem anda refletindo sobre a vida, não vai passar ileso!

Marie (Binoche) acaba de completar 25 primaveras, mas, ao acordar, já é uma mulher de 40 anos, em uma casa enorme à beira da Torre Eiffel, onde um menininho simpático está lhe chamando de mamãe na cozinha. 15 anos se passaram e agora ela é mãe, uma empresária bem sucedida, rica e casada com o homem por quem se apaixonou na última noite de que se lembra, mas logo descobre que vive um casamento pelo fim e que muitas coisas não são como ela esperava.

A trama já é bem clichê e é fácil prever onde ela vai chegar, mas aqui, o drama misturado com um (bom) humor, bem à francesa, dá um clima interessante ao filme. Há um olhar sensível e cuidadoso aos personagens (em especial à protagonista), cuja câmera não agride. Apesar de ser um filme tecnicamente “OK”, sem nada extraordinário de montagem ou de fotografia, com um roteiro mediano, as imagens são bonitas, mesmo previsíveis, e têm um apelo nostálgico. Há momentos em que o ritmo foge do compasso e a trama se perde em acontecimentos “desnecessários” (que não contribuem muito), mas, o que importa aqui será muito menos as qualidades técnicas e de linguagem do que a metáfora que o define.

E vamos e convenhamos que é bom ver um filme em que a protagonista volta-se a ela mesma, à suas paixões, seus sonhos, seus desejos, é a dona de suas ações, e a figura masculina é apenas uma parte disso, como qualquer outra, e não a razão ou o objetivo maior.

Quem já fez o exercício projetar-se em X anos, ou, ao contrário, tentar lembrar como imaginava, anos atrás, que estaria hoje? Imagine como, há 15 anos, sonhava com o futuro. O destino sempre reserva surpresas, desvios de rotas, emergências de atalhos, alguns atrasos necessários, algumas ruas erradas ou perdidas. A incerteza da vida é ao mesmo tempo pavor e esperança. O inesperado assusta, e equilibra. La Vie d’une Autre é sobre chegar naquele momento em que a gente, de repente, se depara com um estranho no espelho, um outro ser humano, e esquece de como tudo aconteceu. Como aquela ruga irrompeu na face? Como se tornou internacionalmente reconhecida, mas, a si mesma não reconhece mais? Marie não entende muitas coisas e não sabe quem ela é.

Saímos de nós na rotina diária, partindo em uma busca por sucesso, por estabilidade, por metas, por companhias, por dinheiro, por sonhos, e então, um dia, de repente, retornamos a nós mesmos, simplesmente. Para um corpo marcado pelo tempo, pelas escolhas. E agora? Esse filme, com sutileza, é um convite a esse retorno. Porque alguns filmes casam com um momento, não importa quão obras primas eles são. É aquele típico “hora certa, lugar certo”. Então, se você também vive, agora, esse caminho de retorno, pode ser que Marie te convide para dançar.


Direção: Sylvie Testud
Elenco: Juliette Binoche, Mathieu Kassovitz,
Música: André Dziezuk
Autora: Frédérique Deghelt
Roteiro: Sylvie Testud, Claire Lemaréchal

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