Lugar de Gente Bonita

*Esse texto foi publicado originalmente no site Pílulas Críticas e é resultado da Oficina de Escrita Crítica, ministrada pelo crítico Heitor Augusto do Panorama Coisa de Cinema 2016. Trago ele para o acervo do Mais Que Sétima Arte pois foi fruto de um momento de grande aprendizado.

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Gente Bonita, longa dirigido por Leon Sampaio, fechou a sessão da Competitiva Baiana III do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema. Além do título instigante, a abertura já é um convite interessante: a entrada bem psicodélica de um camarote com muito agito. Esse espaço por si só já evoca algumas sensações (desagradáveis, em especial) em quem vivencia o carnaval de Salvador: arenas monumentais privadas e segregacionistas, ocupando espaço físico do circuito e “despopularizando” a festa cuja essência é a alegria pública.

Gente Bonita traz uma abordagem interessante (mas não inédita) para o formato documental: todas as imagens são gravadas por grupos de foliões em GoPros e paus-de-selfie, registrando a noite nos camarotes. Bem sagaz a escolha desses equipamentos que são os queridinhos da autopromoção das selfies. O roteiro ficou por conta do que rolou nas festas. Quase tudo previsível: o público (branco em sua extrema maioria), os comportamentos, a misoginia, e por aí vai, e coube à montagem construir a narrativa, cujo tom de comédia irônica (um “tudo nosso, nada deles” subvertido) e sarcástica é um mérito para a obra.

Acompanhamos de perto os personagens que conduzem o longa, seus exageros, os comentários absurdos, os exibicionismos, e, de fato, é possível se envolver com alguns, mas logo o filme se torna muito repetitivo e o riso e a curiosidade vão dando lugar ao tédio. Não só as situações e os elementos de humor se repetem incessantemente, mas também os planos, cujas imagens distorcidas e em plongées e contra-plongeé, que acentuam as hierarquizações, são muito boas, se repetem a ponto de perder seu trunfo na obra. A narrativa então fica solta, e nem ao final, apesar do folião que deixa a festa pedindo aos transeuntes que rasguem sua camisa e se joga no mar de lixo (literalmente, quase!), consegue criar um efeito de completude.

Sem dúvidas, Gente Bonita seria um curta-metragem interessantíssimo. A escolha pelo formato longo diminuiu a força da proposta da direção, que não consegue costurar tão bem a narrativa, ainda que não fosse sua proposta criar uma. O mesmo pode ser dito sobre a escolha dos “foliões-cineastas”, quase todos pessoas brancas (com exceção de uma negra de pele clara), heterossexuais e de classe média, quando na realidade caberia e seria muito importante a ótica de outras realidades, como a de um gay, uma lésbica ou um transsexual (só para recortar o leque de possibilidades), e essa ausência prejudica o conceito final do filme, que perde potência – mas não deixa de ser um produto curioso.

OBS: Peguei a imagem aqui.

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