A Mão que Afaga (curta/2012)

 

Melodrama desconfortável, o curta da baiana Gabriela Amaral Almeida é um retrato angustiante da solidão nos tempos atuais.

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Faz cada vez mais sentido (re)ver esse curta de 2012 que seria bem cômico, se não fosse trágico. A Mão que Afaga é sobre presença (física), afeto e essência solitária. Gabriela Amaral constrói uma narrativa esvaziada de trilha sonora, sem ruídos e com diálogos rasos, que prende o espectador em uma angustiante experiência de dupla estranheza e identificação. E a sutileza como consegue fazer isso é o ponto alto do filme.

A história é sobre Estela, uma operadora de telemarketing de 31 anos, solteira e visivelmente saturada pelo cansaço da lida diária, que prepara uma festa de aniversário para seu filho Lucas. Há carinho, mas a relação de proximidade entre Estela e Lucas é frágil e tímida. Ela tenta contratar um palhaço para animar a festa, mas, por ser muito caro, acaba escolhendo um urso carinhoso. Eis que apenas uma colega e sua mãe comparecem ao evento, que é um visível fracasso. Em momento algum as duas crianças interagem, enquanto as mães trocam algumas poucas conversas sem importância.

O plano de abertura, o mais movimentado de todo o curta, apresenta um ambiente agitado e barulhento, que já sugere cansaço e monotonia por natureza: a empresa de telemarketing. E não haveria escolha melhor para uma narrativa como esta, que propõe apresentar uma personagem carente e solitária, apesar das duzentas pessoas por dia (mil por semana) que ela interage via telefone. Conhecemos Estela em um primeiro plano que, com expressão vazia e fatigada, se apresenta à narrativa.

Como usual nas obras da diretora, que aqui assina a direção, direção de arte e roteiro, a técnica é impecável. A escolha dos enquadramentos e o trabalho de fotografia são os mais marcantes no filme. O ambiente é escuro, sombrio e com cores fortes. Os planos são estáticos e muitos são closes de rosto. O espectador se vê enclausurado e desconfortável nesses quadros fechados, apertados. Há também um cuidado de direção de arte em criar um ambiente estranhamente familiar. As personagens são apáticas, sem expressão, e é tudo exageradamente esquisito, beirando o caricato típico de melodramas. E é na ausência de alguns recursos recorrentes no cinema (movimentos de câmera, trilha sonora, ruídos, variação de cenário,etc) que vai-se criando um sentimento de ausência e angústia. A expressão apática e os olhares vazios das personagens aprofundam ainda mais isso.

A personagem mais interessante e metafórica é o Urso. Com uma fantasia gigante e bizarra de urso de pelúcia, um homem cumpre suas horas como animador de festas, trabalho que realiza beirando um circo de horrores. É nesse personagem sem rosto que Estela vai tentar estabelecer um contato mais profundo (e erótico), como um refúgio. Esse personagem sem rosto, que nunca conhecemos, seria talvez aquilo que escolhemos ou criamos como fuga da rotina, da normalidade diária.

Nos vemos então diante de um thriller tragi-cômico, melodrama exagerado, cujo exagero provoca o riso, mas é um riso culpado, porque logo percebemos a solidão que ronda cada personagem, em especial Estela. Todo o apelo técnico junto aos diálogos superficiais, diretos e curtos, e o insucesso de Estela em interagir com o filho ou com a convidada levantam os questionamentos: Como é que a gente sente as pessoas hoje? Como construímos os laços nessa relação de ausência/presença?

Digo que esse é um curta para o nosso tempo, em que construímos as relações dentro e fora das mediações tecnológicas, dos perfis em redes sociais e dos emojis expressivos e animados, mas o faço sem querer apelar para um criticismo negativo e hipodérmico, apenas refletindo sobre a relação ausência/presença com os sujeitos que nos circundam. A Mão que Afaga é um filme para qualquer um, que consegue tocar sutilmente na essência da solidão que permeia e vaga nos sujeitos, seja aqui ou na China.

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