Cinquenta Tons Mais Escuros

Por Letícia Moreira

Um desafio para as séries cinematográficas é conseguir criar sequências que superem os filmes anteriores, em especial quando a produção é baseada em um romance bestseller mundial e a expectativa dos fãs é gigante. Cinquenta Tons Mais Escuros conseguiu, sem muita dificuldade, superar a narrativa melodramática fraca e solta de Cinquenta Tons de Cinza, mas ainda conserva um roteiro amorfo, cheio de sussurros e submissões.

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Após o término no final do primeiro filme (que, frisando, arrecadou 571 milhões de dólares em bilheteria mundial), o intenso romance entre Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson) assume agora novos contornos. Com novas regras e termos, tem-se então um Grey super apaixonado e disposto a aceitar qualquer exigência da amada, que estaria supostamente mais firme e madura. Baseado no segundo livro da trilogia de sucesso da autora inglesa Erica Leonard James, a segunda adaptação cinematográfica traz um tom mais sombrio e sério, repleto de planos fechados, fotografia escura e trilha sonora fria e clichê.

É desconfortável, de certo modo, falar sobre a adaptação de um romance com o qual não se tem familiaridade, visto que muito da narrativa pode perder a força ou a simbologia. Conhecendo a essência do enredo, é preciso entender que a sexualidade, sensualidade, submissão e conquista vai pautar basicamente toda obra, não podendo exigir ou esperar que esses elementos não estejam presentes. E não é difícil entender o porquê da popularidade da trama: uma ingênua e bela estudante comum se apaixona por um bilionário sexy e sedutor, com quem passa a viver um romance caliente e repleto de fantasias eróticas, dominação e submissão (quase um conto de fadas sádico).

Enquanto no primeiro capítulo tem-se a introdução desse romance, o segundo filme promete penetrar os personagens em suas complexidades e mostrar um lado mais sombrio e sensível de cada um, enquanto tentam construir uma relação baseada em confiança e sem segredos. Ficamos, assim, à espera de um roteiro denso, o que não vamos encontrar. Iniciando com planos fechados, diálogos curtos e uma fotografia marcadamente séria, o filme já introduz o clima que pretende adotar. Não demora muito para a primeira cena de sexo entre o casal, em um desfile de corpos pela câmera, mais precisamente do corpo de Anastasia, iluminado e nu, enquanto Christian permanece vestido, padrão que praticamente vai se conservar o filme inteiro.

A direção de James Foley e o roteiro de Niall Leonard parecem não saber equilibrar muito bem o drama ao longo da obra. As sequências vão se tornando monótonas e, algumas vezes, parece que o diretor tenta quebrar essa monotonia com as cenas de sexo ou com picos de clímax mal dosados, tentando, nitidamente, prender a atenção do espectador, e justamente por isso acaba não desenvolvendo e aprofundando bem os acontecimentos. O acidente de avião, por exemplo, tem uma duração e uma relevância tão curta que pareceu entrar por engano (e mal encaixado) na montagem.

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Se no filme anterior, Jamie Dornan parecia um predador de olhos arregalados e sedentos, vê-se agora uma Dakota Johnson que aparenta estar dopada quase todo o tempo. Apática e com voz de sussurro permanente, a personagem parece não existir fora do relacionamento com Christian. Ainda que o tema central seja o passado e os mistérios que o envolvem, com a apresentação de figuras importantes da sua história (como a mulher com quem iniciou suas fantasias), a completa ausência de vida própria de Anastasia, levemente pincelada em cenas no seu trabalho (mas sempre ligadas a Christian) empobrece a narrativa.

É inevitável fugir da análise da figura feminina central. É bastante presunçoso, em tempos atuais, se propor a falar em uma mulher submissa em um filme de alto orçamento. Nota-se que houve um esforço em atribuir certa autonomia a Anastasia, cujas escolhas e obediência às ordens de Christian estariam ligadas, também, ao seu próprio prazer e curiosidade. Porém, mesmo tentando encontrar essa autonomia, ela é apenas aparente e rasa, visto que Ana não conquista nada por méritos próprios e, mais uma vez, não existe fora do relacionamento (mesmo sabendo que o filme é sobre eles dois) e é sempre retratada como a donzela em perigo. Além disso, é seu corpo o que está sempre bem iluminado, enquadrado e percorrido pela câmera.

Há uma nítida guinada no roteiro a partir da cena em que Anastasia assiste ao tratamento que Christian dedica à sua antiga submissa Leila (Bella Heathcote), que aparece como um fantasma e a ameaça com uma arma. Aqui, a protagonista parece tentar olhar para si mesma. A partir desse momento, a personagem de Dakota começa a ocupar os primeiros planos da tela e o centro das ações, enquadrada à direita do plano e, por vezes, superior ao Christian. Há uma tentativa de entregar o olhar voyeurista à ela, que admira o companheiro enquanto ele se exercita, com a câmera passeando o corpo do ator, assim como o faz com Anastasia em várias outras cenas. O filme adquire também um tom mais amadeirado e renovado. Essa guinada, porém, não é suficiente para salvar o resultado final.

Ainda que não consiga, efetivamente, prender o espectador e cumprir com o que promete, de desenhar os contornos mais densos dos personagens e dos acontecimentos, o filme promete agradar aos fãs mais fiéis da saga, pois engloba bem aqueles elementos que o tornaram um fenômeno: o romance, a paixão, as fantasias e segredos sexuais. Cinquenta Tons Mais Escuros chega aos cinemas dia 09 de fevereiro.

Baseado no romance de E. L. James, dirigido por James Foley, com Dakota Johnson, James Dornan, Bella Heathcote, Rita Ora, Eloise Mumford. Roteiro de Niall Leonard. Universal Pictures – 2017.

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