Mulher-Maravilha

Uma vida de espera por filmes de heroínas protagonistas que realmente ocupem esse espaço, pura e plenamente: A Heroína. Não um personagem passional secundário, ou uma protagonista desenhada para olhos (masculinos) famintos por imagens sensuais envoltas em lutas e ações, sempre sob a sombra de qualquer fragilidade a que facilmente se acostumou submeter às personagens femininas. Eis que temos agora, com Mulher Maravilha, o combo plus+.

Dirigido e protagonizado por mulheres, o filme traz um roteiro sólido, redondo e bem costurado, ainda que previsível e com pitadas de clichês, em uma história que, para além das qualidades técnicas da narrativa, é cuidadosa e atenta às questões de gênero. E sim, as cenas de ação são um ganho!

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É indispensável, em meio a tantos gritos, denúncias e movimentos por conta do espaço que as mulheres ocupam dentro e fora das telas, que qualquer análise sobre Mulher- Maravilha ancore-se nesse terreno, e isso não diminui a abordagem técnica da obra. Afinal, não dá pra conter a alegria que é ver-nos assim, na grande tela. 

“Eu sou o homem que pode..!”, brada Diana Prince (Gal Gadot) em resposta ao piloto Steve Trevor (Chris Pine) sobre quem poderia salvar o mundo da Guerra. Através de um flashback, o filme conta a história da princesa amazona desde a infância, na mitológica e paradisíaca Temiscira, até a sua jornada no mundo dos homens e na luta contra Ares. E é esse recurso, que facilmente cairia no clichê maçante, o primeiro grande acerto de uma direção que consegue amarrar um roteiro seguro em um ritmo que é adequado para aquilo que se propõe, apresentar a personagem, sem exagerar e sem ser superficial ou didático, dosando bem o drama, humor e a emoção épica da aventura. Há um bom equilíbrio nesse sentido.

É facilmente perceptível que houve um cuidado em abordar e apresentar questões de gênero, em especial pelas alfinetadas ao patriarcado e a discursos vulgares em filmes de ação. A cena em que o Trevor aparece ajoelhado em um círculo de Amazonas é semioticamente bastante significativa (quem amou levanta a mão! o/). E, ainda que a função da(s) heroína(s) fosse de levar a paz e cuidar dos homens, uma visão bastante maternalista (e que seria um tiro no pé), o filme não torna isso um grande apelo à saga da personagem. A representação feminina ganha pontos também com a vilã da história, a Dra. Veneno/Dra. Maru (Elena Anaya), química que desenvolve armas bélicas, cuja posição na guerra é estratégica e importante. 

General Lunderdoff (Danny Huston), por sua vez, parece perder-se em meio à história quando se transforma em um vilão super humano, com a ajuda da Dra. Veneno. É talvez esse o ponto mais fraco do enredo, cujo desfecho cumpre sua função, mas é bem aleatório, convenhamos. 

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As sequências mais empolgantes e inspiradoras (ok, vou usar o termo Girl Power, apesar de prometer não fazê-lo), além de esteticamente mais promissoras, são aquelas iniciais em que conhecemos as Amazonas, mulheres diversas, autônomas e independentes que vivem, lutam, e governam-se, sem a hégide do patriarcado (tá, tem Zeus que é o criador, pai, poderoso, deusolimpo e blablabla, mas ok, fixemos no que interessa:). É aqui onde conhecemos o nascimento da guerreira Diana, treinada pela tia, a general Antíope (Robin Wright) e sob a criação da mãe Hipólita (Connie Nielsen). É aqui o momento que o coração palpita, os olhos brilham e o sorriso rasga o rosto (Ah, va lá, tá liberado hoje ser menos formal e mais emotiva, beleza? Robin Wright Amazona, people…).

Dentro das 2:21h, a narrativa se divide em momentos que adaptam as distintas fases da saga de Diana. O filme vai ficando mais lento, menos sonoro, e a fotografia escura (contrastando com as cores vivas e claras da Ilha das Amazonas) e marcada de uma Londres em Guerra vai moldando a complexidade dramática da personagem, que começa a deparar-se com a cruel realidade da humanidade enquanto prepara-se para enfrentar sua missão: destruir Ares. A (cena de) irrupção da Mulher Maravilha é bonita, porém a estética do filme se transforma muito bruscamente e, por milésimos de segundo, parece que saímos do universo do filme.

O que os efeitos especiais deixam a desejar (leia-se: nada demais), as cenas de ação compensam com maestria. A opção de utilizar demasiadamente o slow motion consegue valorizar a os movimentos, permitindo ao espectador acompanhar a batalha e desfrutar a riqueza da coreografia, das nuances dos atores e sutileza dos personagens. Patty Jenkins consegue também honrar a figura feminina nesses momentos, valorizando o corpo não em sua sensualidade, puramente, mas na força de uma heroína e de uma atriz que traz traços fortes de si para a personagem.

A maneira como o roteiro de insere o elemento “amor” é sóbria e sutil, sem apelos, mesmo no amor romântico entre Prince e Trevor. Em meio ao nosso mundo repleto de indiferença, egoísmo e violências, é de fato o amor, a compaixão e a fé na humanidade as únicas armas que pode nos salvar.

Se a indústria cinematográfica pena e treme em produzir blockbusters protagonizados por mulheres, e, quando o fazem, a turminha conservadora barulhenta logo se mobiliza para “boicotar” (basta pesquisar os boicotes promovidos à Caça Fantasmas e Mad Max: Estrada da Fúria, ambos de direção masculina, apenas para citar exemplos), imagine quão duro é conseguirmos assistir a uma diretora frente a um projeto de altíssimo orçamento. Pois Patty Jenkins não fez menos do que poderíamos esperar. 

Curiosamente, no mesmo ano de Logan, recebemos esse filme que antes da estreia oficial, já conseguiu causar boas impressões entre críticos e cinéfilos (97% no Rotten Tomatoes). Mandemos, então, nosso recado: #QueroMaisMulherMaravilha e queremos mais diretoras mulheres, sim! Representatividade não é só mais uma palavra da moda, é coisa séria. E já temos mais um passinho aí!

Assista ao trailer:

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