Maria Madalena

A biografia de uma das mulheres mais injustiçadas da história, Maria Madalena, novo longa do diretor Garth Davis, estreia no próximo dia 15/03 e traz uma interessante revisão crítica de uma das história mais dogmáticas do mundo, mostrando-se um filme que tenta, com alguns êxitos, criar uma “personagem bíblica feminista”, se essa possibilidade existir em algum plano.

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Com uma estética bíblica marcante (fotografia acentuada, planos e ritmo quase sacrossantos) e um roteiro que levanta importantes tensionamentos sobre o Cristianismo, o filme consegue tocar questões políticas atuais e demonstra uma atenção às demandas feministas por personagens cujas vozes sejam minimamente ouvidas. Aquela que foi crucificada pelos senhores do império, Maria Madalena (Rooney Mara) tem agora seu protagonismo acompanhado de uma história sobre a união das mulheres na luta e na revolução dos rumos do mundo.

“É como uma semente” – ecoa uma voz feminina que afunda solitária em um oceano aberto. A ideia de um filme sobre Maria Madalena de pronto me tomou a atenção. Parece impossível, em meio aos anseios e discussões sobre mulheres no cinema, e para alguém que cresceu num ocidente cristão, não situar essa análise em um terreno atento a essa representação. Se há um fato incontestável no mundo ocidental, é o de que a(s) religião(ões) estruturaram-se a partir de um genocídio, real e epistêmico, de um gênero (o segundo sexo de Beauvoir).

Apesar da direção masculina (claro, isso é central no que vemos em tela, em especial quando muitas mulheres que poderiam ter assumido esse cargo), o filme tem bons acertos, ainda que a personagem central perca o protagonismo para o outro camarada (Jesus) em alguns momentos da trama. Sem tanta inovação em termos técnicos ou estéticos, me parece mais interessante abordar o que suscita a experiência com o discurso do filme.

A história de Maria Madalena é contada a partir das ações de Cristo (Joaquin Phoenix), desde quando ela se une aos apóstolos e enfrenta a família e os costumes. Sem qualquer alusão à prostituição, a personagem está sempre questionando o ser mulher e seu lugar na construção do Reino de Deus pelo Messias. A relação da protagonista com o Cristo é apresentada horizontalmente, em que este a consulta e a pede: “seja minha mão”. A fotografia e a montagem dos planos parece tentar explicitar uma igualdade de importância destes dois personagens na cena. Há jogos de planos que sugerem igualar a dor e o sofrimento de Jesus e o de Maria Madalena, apesar de em um ou dois planos ela estar inferior. A fotografia tem uma força narrativa muito importante no filme.

Um acerto da direção é a escolha de Rooney Mara para dar vida à protagonista. A atriz contrasta uma aparente fragilidade com uma força no olhar que desarma qualquer sugestiva submissão. Outro ponto forte é a escolha dos acontecimentos bíblicos convocados à narrativa (desde os principais, como a morte de Cristo, até momentos menos pontuais, como as conversas com apóstolos) e a inserção de Madalena em todos estes momentos, e em um lugar central nas decisões. Aqui tem-se um contraste com a bíblia que conhecemos hoje, que além de apagar as mulheres da história, as coloca em lugares extremamente inferiores, e o roteiro tenta subverter essa narrativa.

O ritmo da trama se alterna entre momentos de maior ação em tela, com mais informações sonoras e visuais, e outros de quase total silêncio, mas cujos discursos carregam fortes informações e levam o espectador à profunda personalidade da protagonista. Há, porém, um momento em que o protagonismo narrativo e emocional se transfere da figura de Maria Madalena para o personagem do Rabi (Jesus Cristo), e a narrativa parece se perder em mais um clássico bíblico de exaltação ao mestre. Ao passo que isso rompe, ainda que sutilmente, a linha narrativa sobre a personagem título, o que parece frustrante, o longa conserva e retoma sua força ao final, quando o patriarcado dos homens se torna evidente.

Há, então, um constante questionamento em torno do ser mulher naquele contexto que se expande em um questionamento maior da inserção da mulher na própria bíblia. Maria Madalena ocupa na trama posições e funções que a nenhuma mulher, hoje, é permitida na estrutura da Igreja Católica (apostólica romana). Destaco, então, pontos máximos do filme: As mulheres de Caná que batizam-se pelas mãos da apóstola Madalena e quando esta brada aos apóstolos que será ouvida. É dela a mensagem de paz, de reforma e o anúncio da verdadeira vontade do Cristo. É a união das mulheres, e nada além disso, que as salvará das opressões. As demais personagens femininas também assumem discursos contundentes.

Maria Madalena e o apóstolo Judas aparecem como fiéis empenhados e firmes nas palavras e ações de Jesus, o que gera empatia e destoa das tradicionais narrativas que os condenam ao antagonismo no destino do Salvador. Questionar o dogma cristão sem assumir uma bandeira radical parece ser a aposta do roteiro para dialogar com um amplo público. 

Direção: Garth Davis. Com: Rooney Mara, Joaquin Phoenix, Chiwetel Ejiofor. Universal Pictures.

Assista ao trailer:

 

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