Oito Mulheres e um Segredo

Esse filme é para aquelas meninas de 8 anos que, em algum lugar, sonham em ser criminosas. Vocês podem tudo!

oceans-8-trailer-preview

A espera acabou e finalmente  estreia (07 de junho) Outo Mulheres e Um Segredo (Ocean’s 8)spin-off e (versão mais empolgante) da trilogia Onze Homens e Um Segredo, agora com direção de Gary Ross (falarei disso adiante!). Com personagens seguras e intensas, o longa é sem dúvida um bom entretenimento e uma grande aposta de Hollywood na era do #MeToo, ainda que o ritmo oscile no caminho.

Friso aqui a emoção de ver tanta mulher f* em cena. (Vou parar de falar do elenco, ok? prometo!)

Sem os cenários luminosos dos cassinos do Danny Ocean (Clooney, na trilogia passada), a trama agora se desenrola em Nova York, liderada por Debbie Ocean (Sandra Bullock), que, após 5 anos na cadeia, toca o plano de roubar o Toussaint, colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares, no anual baile de gala do MET (organizado por ninguém menos que Anna Wintour, editora chefe da Vogue, que conhecemos mais como “Miranda Priestly”). Para tanto, convoca um time de mulheres especialistas de alto nível. O elenco conta também com Anne Hathaway, Cate Blanchett, Helena B. Carter, Rihanna, Sarah Paulson, Mindy Calling e Awkwafina.

Entre closes e detalhes em excesso, somos apresentadas às personagens. Sandra Bullock personifica com peso a protagonista, trazendo nuances de uma canastrona muito segura e decidida, refletindo na condução do roteiro. O trabalho de Ross não enrola o tempo e é bastante direto nas ações. Cada uma delas é fundamental no plano do roubo e o filme não peca nessa representação – não há hierarquias ou rivalidades entre as mulheres, algo muito comum nos filmes do gênero.

O clima de glamour vai surgindo pelas ruas de Nova York e nos corredores do MET, repleto de personalidades reais. Tudo é muito direto e as coisas se resolvem rápido: positivo para a trama, mas titubeante na montagem. Movimentos de câmera ou/e enquadramentos “diferentões”, em algumas cenas, acabam criando um efeito estranho de desconexão diegética. A montagem gera também algumas quebras e oscilações de ritmo, principalmente no meio do filme, mas recupera o fôlego no roubo em diante.

O debate sobre o papel das mulheres na sétima arte não passa batido e há uma provocação (nas cenas finais, portando sem detalhes aqui) sobre os olhares e a direção feminina no cinema. O que contradiz a escolha de um homem, mas vamos seguir! Os personagens masculinos são acessórios e isso é sensacional.

As oito protagonistas são bem construídas e é impossível não tocar no ponto central aqui: representatividade e gênero nos filmes mainstream em temas tipicamente masculinos (roubo-ação-estratégia-aventura). As mulheres não deixam a desejar na condução de um plano que requer inteligência, coragem, habilidade e segurança, o que na maioria esmagadora dos filmes são características muito marcantes nos personagens homens. A nós foi relegado o papel de prêmio ou de impasse na jornada do herói. Mesmo com uma direção masculina, todas são donas de si e do seu papel – não estão atrapadas a nenhuma outra trama se não às suas mesmas.

Se o trato com as personagens foi positivo, o mesmo não diria da caracterização das atrizes. Ok, é Nova York, é o MET, é luxo e riqueza, é o Baile de Gala, sabemos disso. Mas a maquiagem excessiva das atrizes em TODO o filme faz parecer que há um medo generalizado em mostrar rugas (alguém me diz se Helena B. Carter era ela mesmo ou era a estátua de cera do Madame Toussaud?). Há um excesso, como já disse, de closes, especialmente nos rostos, e é essa uma das minhas intrigas com a direção masculina.

Nine Ball (Rihanna), única negra do grupo, é a hacker que consegue derrubar todos os sistemas de segurança. Ok, sua construção foi bem caricara (combo dread – maconha – reggae – sinuca), mas é essa figura com o maior QI e, se pensarmos nos papéis normalmente associados aos supernerds (os boyzinhos gênios, bobões, de óculos), Nina Ball pode ser uma subversão interessante!

Uma das melhores construções ficou com Sarah Paulson: Tammy é uma dona de casa e mãe de família, de voz singela e ar maternal, que não dá satisfação ao marido e não hesita em se unir ao grupo. Sem dúvida uma inversão curiosa para um papel normalmente passivo e caricato.

Quem talvez tenha sido pouco aproveitada é Lou (Cate Blanchett), personagem com um potencial maior do que oferecido pelo filme, ainda que ela seja central no plano (ao lado de Debbie). Evito dizer “poderia ser”, porque um filme simplesmente “é”, e esse “é” é o tem pra falar. Maaas, poxa, queria mais Lou!

Boas surpresas aparecem, como a referência direta aos filmes passados com a convocação de um antigo personagem (sem spoiler). Há também uma Sandra Bullock alemã (a atriz viveu anos na Alemanha na infância, desculpa, mas eu sou fã)

Ahh, e vocês estão familiarizados com o termo Queerbating*? Pois bem, se preparem porque vai rolar bastante no filme.

sandra-bullock-em-oito-mulheres-e-um-segredo-1

Muito melhor como entretenimento do que como narrativa, Oito Mulheres e Um Segredo não supriu as expectativas, mas diverte e é um deleite. Falta ao filme, talvez, uma narrativa mais instigante. Mas quero afirmar que é sensacional sentar em uma sala de cinema e se sentir interpelada e representada por personagens f*das!

giphy

 

*Queerbaiting – “Queer” (termo antes pejorativo, mas tomado pela comunidade LGBT como emponderamento) + “Bait” (isca) é um termo em inglês que designa uma estratégia midiática  manipulada para atrair um público que não se identifica com o padrão cis-heteronormativo a partir da inserção de climas românticos ou sexuais entre personagens no mesmo gênero, mas de modo que não desagrade a parcela conservadora (e homofóbica) da audiência. Saiba mais aqui!

Um comentário em “Oito Mulheres e um Segredo

  1. Olá. Cheguei até você pelo blog Delirium Nerd e talvez vc posso me tirar uma dúvida. Quando as atrizes/atores que fazem personagens abertamente LGBT e vivem esse relacionamento na ficção vão a Comic Con’s e se comportam como “chegados” fazendo a galega imaginar muitas coisas sobre um relacionamento fora das telas, isso tem um nome?? Obrigada.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s