Amor, Liberdade e Escolhas em “Desobediência”

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Dentre todas as instituições sociais, as religiões têm sido paradigmáticas no que concerne ao exercício e a vivência plena da liberdade de ser o que se é e amar quem se quer amar. Na esteira do mito criacionista, a ordem heteronormativa se consolidou como o estatuto universal das coisas – homens cisgênero* amam mulheres cisgênero e, sob a lei divina, procriam em união sagrada. Toda essa estrutura exclui e oprime uma série de outras vivências, identidades e sexualidades.

Lançando-se nesse universo e tensionando seus estatutos, Desobediência (Disobedience), filme do diretor chileno Sebastián Lelio, vencedor do Oscar por Uma Mulher Fantástica (2017), retrata uma história de amor e liberdade entre duas mulheres (na verdade, muito além da relação “entre as duas”, mas para cada uma consigo mesma), numa comunidade ortodoxa judaica. Um dos filmes mais sensíveis (e responsáveis) que se propuseram a abordar a temática da religião e homoafetividade. Com cenas poéticas e uma representação lésbica/bissexual que não desaponta.

O drama, adaptação do romance de Naomi Alderman, aborda a questão da sexualidade e amor em uma narrativa delicada e intensa, com um clima que mescla a nostalgia com a intensidade do desejo. Representa o amor entre duas mulheres com distintas identidades, uma bissexual e a outra lésbica, o que já merece destaque de antemão! É, no mínimo, um pontinho de luz na expectativa desse público.

Ronit (Rachel Weisz), fotógrafa que vive em NY, regressa à sua comunidade natal, da qual havia se exilado anos atrás, em decorrência de uma perda familiar. Bissexual, ela se recusou a viver de acordo às normas misóginas da comunidade judaica. Reencontra seus companheiros do passado, Esti (Rachel Adams) e seu primo Dovid (Alessandro Nivola), e descobre que ambos estão casados. Esti e Ronit, porém, têm um passado de paixão e esse romance lésbico gerou tensões e foi motivo de seu exílio.

Bastante cuidadosa, a direção cria, a partir de escolhas como planos mais fechados e fotografia fria, uma certa tensão, reforçada no trabalho do som. Algumas cenas cruciais tem praticamente uma completa “ausência” de ruídos sonoros, ou música, o que convida o espectador a uma imersão total na situação. Essa tensão representa o próprio embate entre aceitar a própria identidade e desejos, ou cumprir o dever para com a comunidade e o que se espera é esperado de cada um, o que envolve o trio protagonista. A montagem do filme é cuidadosa, mantendo o ritmo sem precisar apelar a momentos de grandes saltos. 

A representação LGBTQ, em especial a lésbica, no cinema é quase sempre envolta em estereótipos, narrativas punitivas, etc. É impossível não dedicar uma atenção especial à essa questão quando me deparo com um filme que se propõe abordá-la, em especial quando a direção é masculina (ainda que o roteiro tenha sido co-produzido com Rebecca Lenkiewic). Sebastián demonstra cuidado ao retratar o romance, com especial atenção às cenas de sexo, que, além de sensíveis e belas, não expõe desnecessariamente os corpos nem incorre à fetichizações masculinistas da relação entre mulheres. Destaco aqui o empenho de Rachel Weisz (também produtora), em acompanhar a montagem das cenas (reconhecendo a centralidade do olhar feminino nessa construção simbólica/imagética). As cenas de amor são poéticas.

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“Sempre fomos os três” – afirma Ronit, e essa frase representa a narrativa, que se constrói em torno do triângulo. Há atenção não só à relação entre as Ronit e Esti, mas também à amizade e o carinho entre Ronit e seu primo. O trabalho dos atores consegue materializar emoções e sentimentos. Um dos pontos altos do filme é não incorrer à rivalidade, ou ódio, como fio condutor desse trio.

A exposição do patriarcado não vem da demonstração violenta do poder masculino, mas da exposição das estruturas simbólicas que a conforma. Não faltaram problematizações a respeito do lugar das mulheres na cultura judaica. Em uma cena primordial, Esti se refere à “morte das mulheres” quando estas perdem seus nomes ao casar-se.

Ainda que a figura masculina apareça como o provedor da liberdade, ou libertador, algo que me incomoda (mas que entendo, dado o contexto específico da religião) o trunfo do filme, porém, é a forma como a liberdade é colocada. Muito mais complexa do que seguir o coração ou ceder ao que se espera de “felicidade”, a liberdade (de escolha, de ação, de amor) às vezes exige uma viagem interior e um abandono a laços afetivos e, especialmente, a coisas que nos vêm sendo âncora. Só assim será possível assumir as rédeas da própria existência.

 

*Cisgênero → Entende-se como pessoa cisgênera àquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado por uma autoridade (geralmente um médica/o) no momento do nascimento. Tal designação é normalmente atribuída a partir do órgão genital (meninas são as que nascem com uma vagina, homens com um pênis).

 

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