“XXY”, de Lucía Puenzo – Uma análise sob a (des)luz da heteronormatividade cisgênera.

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Na esteira da luta das minorias sociais, a comunidade LGBTQI+ vêm ocupando cada vez mais espaços de discussão e ação política. É importante e intenso o movimento de se empoderar e abraçar essa bandeira, mas será que já compreendemos de fato as particularidades e complexidades dos sujeitos que a conformam? Quanto é sabido sobre aqueles que se definem “Intersex” ou “Intergênero”? É esse tema que aborda o longa argentino XXY (2007), dirigido por Lucía Puenzo e protagonizado por Inés Éfron e Ricardo Darín. À luz do artigo “Heteronormatividade e Homofobia”*¹, de Guacira Lopes Louro (2009), e das contribuíções da pesquisadora Raíssa Éris*² (em encontro com a turma de discentes do componente FCH02 – Introdução aos Estudos de Gênero) sobre a experiência trans, formularei algumas análises a partir do recorte de como as configurações sociais e culturais que regulam a heteronormatividade se inserem na narrativa do filme e da protagonista. 

Alex é uma adolescente de 15 anos (utilizo o feminino pois assim é feito na obra), interssexual – possui dois órgãos genitais, em decorrência de uma mutação genética, referida no título (XXY é um híbrido XX e XY). Seus pais Suli (Valéria Bertuccelli) e Kraken (Darín), que optaram por esperar que a jovem decidisse os próprios rumos, se afastaram da cidade grande como fuga dos discursos e imposições das autoridades médicas e dos julgamentos e opressões da sociedade, razão pela qual optam também por “esconder” socialmente Alex sob a identidade feminina, ainda que sempre tenham sido abertos com a jovem.

Ao introduzir sua reflexão sobre o processo de institucionalização da heteronormatividade cisgênera*³ como o estado “normal” das coisas, a pesquisadora Guacira Lopes retoma a história real de um jovem hermafrodita do século XIX, que cometera suicídio por sua condição sexual indefinida. Daí pretende chegar à questão da definição sexual como um processo socialmente construído ao longo dos séculos. A diferenciação sexual, como vai afirmar, não é um dado ahistórico que sempre existiu, ao contrário. Com a separação dos sexos (pelos órgãos sexuais), a sexualidade começa a ser estabelecida a partir dos corpos (a discussão sobre “gênero” se insere aqui, mas não detalharei). Nesse momento, quem detinha poder epistemológico para produzir discursos eram as autoridades médicas e científicas, ou seja, homens intelectuais europeus.

No filme, compreendemos o que a autora (Lopes/2009) explicita como “produção compulsória da norma heterossexual” a partir do alinhamento entre sexo – gênero – sexualidade, pois essas questões são centrais na narrativa de Alex. Se é na diferença sexual que ela se instaura, a intersexualidade, que poderia ser lido aqui, figurativamente, como a ausência dessa diferença, vem para tensionar o discurso legitimador da heterossexualidade. Ou seja, Alex contraria todo o processo social que instituiu tal norma como “natural”, visto que ela é naturalmente parte dos dois sexos. Ela desafia, assim, a lógica binária.

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Álvaro e Alex

A sexualidade da protagonista está, também, intrinsecamente ligada à sua condição biológica (e a compreensão sócio-cultural acerca da mesma). Quando questionada por Álvaro (Martín Piroyansky) se prefere “meninos” ou “meninas”, a resposta é: “não sei!”, ainda que se diga, posteriormente, apaixonada por ele. Em seu artigo, Guacira faz um esforço interessante de demonstrar, a todo tempo, como a sexualidade e o próprio sexo é uma formulação historicamente elaborada. A personagem de Alex parece experimentar o conflito de perceber que a sua experiência não condiz com àquilo que é socialmente atribuído a ela.

Uma questão central na narrativa do longa se volta à figura da autoridade médica e seus discursos. Na aula, Raíssa Éris pontuou que no momento de assignação do gênero há sempre uma autoridade (em geral a médica) por trás e que esse processo está envolto de relações de poder. Estas últimas, segundo ela, não são somente opressoras, mas também normativas, produtivas e prescritivas. A normatização do padrão cisgênero heterossexual como universal e natural é, portanto, conformado por tais relações. No filme, os pais da Alex optam por esperar que a jovem decida os próprios rumos, se afastaram da cidade grande como fuga dos discursos e imposições das autoridades médicas, e das pessoas em geral, que tendem a “reformar” àquilo que foge à norma, seja através da castração, de tratamentos psicológicos, etc.

O fato de a mãe de Alex ter convidado um médico para conhecer a filha provoca inquietação no marido, que entende essa figura como ameaçadora à existência da protagonista. Quando decide procurar Juan (Guillermo Angelelli), homem hermafrodita que viveu a mesma circunstância que sua filha, e questioná-lo sobre a escolha de não realizar a cirurgia durante a infância, escuta que o processo da cirurgia como “castração” e “normalização” pode ser muito violento e traumático para o sujeito.

A violência é quase sempre um instrumento “normatizador”. É o que acontece quando um grupo de jovens homens violentam, desnudam e tentam estuprar a protagonista, como um “teste” para verificar como ela “funcionaria”, visto que possui os dois órgãos sexuais. As violências – físicas, psicológicas, simbólicas – são, praticamente, parte constituinte da experiência existencial e social das pessoas LGBTQI+, especialmente àquelas que desafiam as lógicas binárias de identidade de gênero, como os queer, transexuais, intergêneros, independente da sexualidade. Não pretendo, jamais, colocar a violência como aspecto mais relevante na discussão, mas no filme isto está colocado de maneira assertiva.

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Acredito que um dos maiores trunfos do artigo de Guacira Lopes Louro seja a clareza necessária com a qual consegue destrinchar o tema proposto, explicitando como as noções de “sexo”, “gênero” são produtos sociais, e não da natureza ou do criacionismo, assim como a condição heterossexual foi inventada e naturalizada, e como a opressão heteronormativa está imposta e disposta pelos discursos e relações de poder, de modo que seu texto é bastante acessível. O mesmo poderia ser dito sobre o filme, cuja narrativa aborda de modo sensível, por vezes também didático, a realidade de uma pessoa intersexual, em um momento de tensões e imprecisões como é a adolescência, sendo acessível a diversos espectadores.

*¹ – LOURO, Guacira Lopes. Heteronormatividade e homofobia. In; JUNQUEIRA, Rogério (org.). Diversidade sexual na educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação/SECAD; UNESCO, 2009. (p.85-93).

*² – Raíssa Éris é psicóloga, performer, doutora e ativista transfeminista. As contribuições em que me baseio são oriundas de sua presença na aula do dia 20 de junho de 2018, no componente FCH02 Introdução aos Estudos de Gênero, com a docente Fran Ribeiro, do Departamento de Gênero e Feminismo, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. 

*³ – Cisgênero → Entende-se como pessoa cisgênera àquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado por uma autoridade (geralmente um médica/o) no momento do nascimento. Tal designação é normalmente atribuída a partir do órgão genital (meninas são as que nascem com uma vagina, homens com um pênis).

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