Primavera Morta

Tenho tentado com vigor evitar clichês sobre dores e angústias em um ano de tragédia universalmente compartilhada e tragédias secretamente vividas. Talvez porque ainda não encontrei maneiras lexicalmente palpáveis de fazê-lo – e talvez nunca encontre.

Em minha busca por uma identidade na escrita, os clichês eram como perversos demônios à espreita, prontos para arruinar a persona distinta que eu tentava, sem sucesso, tramar. Mas isso foi antes, quando uma convicção de que a singularidade e o excentrismo eram artigos inestimáveis me foi vendida à vista. Cancelei a compra e não quis estorno. Encontrei, por fim, afago na trivialidade do vulgar.

Era uma tarde qualquer, em um dia comum do final de novembro. A Primavera, com toda esperança que floresce ridicularmente nos ipês coloridos de amarelo, rosa e lilás, estufados na brisa abafada de Campinas, ensaiava a despedida próxima. Eu brigava com a tela em branco onde supostamente deveria haver um texto pomposo, do qual o prazo acercado era tudo o que meus olhos logravam ver. Fazia alguns dias que Joana tinha trazido um ramo de primavera, cuja árvore-mãe enfeita o nosso portão, para enfeitar a mesa da cozinha. Descansava agora, sob as minhas vistas, o ramo de primavera morta.

Tal como alguém que abraçou a trivialidade, me deixei deslumbrar pela beleza singular de uma flor que seca sem medo. Enxuta e imponente. Pensei em como as primaveras morrem. “E se a primavera morre, quem sou eu pra ser eterna?” – rabisquei sob a tela em branco, no silêncio das minhas próprias tragédias secretamente embaladas. Não há outros espaços se não os clichês para chorar algumas lágrimas. Relembrar que a vida é sucessão de topos e vales, uma sequência de ciclos – idas e vindas do nada a lugar nenhum a não ser ao aqui/agora – não descomplica no lance de viver as mortes e aceitar as finitudes enquanto se alastra uma fé desumana na produtividade incessante. Morte de gente se somou a outras mortes. Morte do entusiasmo de escrever o texto, de terminar o mestrado, de acompanhar as notícias, de recomeçar a vida, de acreditar no mundo.

A morte de certezas arraigadas (me) tiram do prumo mais do que surpresas desagradáveis. Nunca fui uma mulher de muitas certezas e nunca entendi bem o porquê de tantas delas em um mundo de improvisos que brinca de esconder a própria inconstância. E tá aí o 2020 como uma nota de repúdio para a humanidade. Não encontrei outros espaços se não nos clichês para chorar as lágrimas da nossa própria finitude. E quando eu não for fértil ou profícua? E quando sobrarem apenas as folhas secas enfeitando uma mesa ordinária e adjetivos exagerados e pobres jogados no texto para pintar seja lá o que for tudo isso?

Se até a primavera morre, quem sou para ansiar ser eterna?

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