Cidade das Garotas [Resenha]

Por: Letícia Moreira

Na batalha incessante para “dar conta” (se isso realmente existir) dos labores diários, perdi a noção da última vez em que entrei de cabeça num livro e viajei no universo diegético de uma narrativa literária (e não audiovisual, como meus objetos de pesquisa). Por uma sincronicidade da vida (para ser mais exata: uma live do Instagram), lembrei de quando li Comer, Rezar e Amar, da escritora estadunidense Elizabeth Gilbert.

Não sei precisar se foi o estilo meio “hippie burguesa em crise” da autora (Comer, Rezar e Amar é uma obra autobiográfica) ou se foram os destinos escolhidos para sua jornada auto imersiva (Itália, Índia e Indonésia) o que me agarrou de jeito a ponto de eu não comer, por horas, enquanto lia (e não comer é MUITO raro por aqui). A verdade é que foi uma leitura intensa. O estilo de escrita e a voz suave e honesta de Liz Gilbert a colocaram na minha listinha de pessoas legais para seguir na vida. Em 2019, a autora lançou Cidade das Garotas (City of Girls), cujo título me atraiu de cara, mas ficou um bom tempo na fila de espera. Até agora.

Embora eu não tenha qualquer experiência em crítica literária e, confesso, não seja uma das leitoras mais assíduas da contemporaneidade, entrei em um estado de vivência profundamente afetiva com a obra e algo me interpelou a falar sobre ela. Cidade das Garotas é, basicamente, uma romance sobre uma mulher que reflete abertamente seus longos anos de vida, narrado como uma correspondência a uma antiga conhecida. A intimidade confidencial, o universo artístico das showgirls dos anos 1940 e a profunda honestidade com que a narrativa é conduzida e as personagens são apresentadas são alguns dos seus trunfos, marcando um texto que é íntimo e histórico, e não deixa de explorar recortes de gênero e classe no transcorrer do século passado.

Aos 19 anos, em 1940, Vivian Morris deixa a cidade interiorana e embarca em um trem, com algumas maletas e uma máquina de costura, rumo à Nova York, após ser expulsa de uma renomada universidade e cair no desgosto discreto dos seus pais. Acolhida pela excêntrica e intensa tia Peg, quem dirige, ao lado de sua companheira Olive, o Lily Playhouse, um teatro off-Broadway, cujas atrações principais são as showgirls e algumas montagens vulgares, Vivian imerge em um novo mundo. É neste universo artístico e liberto de Manhattan em um período entre guerras que Liz Gilbert explora laços afetivos e as experiências no processo de transição e amadurecimento de uma mulher em uma metrópole ocidental cosmopolita .

Me atraem muito as narrativas pessoais que se atrelam a um laço territorial profundo e esse é um dos aspectos mais interessantes deste texto. Somos corpos-espaços que se formam e conformam (n)os lugares onde cruzamos. Embora o ethos nova-iorquino tenha se tornado quase uma entidade glamourizada nas histórias estadunidenses, a autora consegue desenhar uma espacialidade que se ancora na cidade mas não deixa de inserir elementos nos quais podemos (nós, seres urbanos não-nova-iorquinos) nos localizar sem muito custo.

A cidade assume na trama o lugar de personagem – que age, sofre e modela a história. As cidades mudam com a gente no mesmo ritmo em que mudamos com as cidades. A Nova York de Cidade das Garotas aciona um imaginário de possibilidades, arte e expansão, rodeada de riscos e fracassos, traços que a autora aproveita com talento e sem maniqueísmos. Assim como Vivian escapa à vida que lhe haviam desenhado, também os lugares escapam aos planos humanos.

Vivian está perdida na vida, como eu, e este poderia ser (agora adoto o tom confessional de Vivian, e da própria Elizabeth) o nosso elo de ligação. A protagonista põe em prática uma filosofia que há tempos têm sido a minha, de certas formas: interagir com o que surge (em poucas palavras). Quando não temos controle sobre o caminhar do destino e do universo, nos cabe viver o momento presente com aquilo que está (e que estamos). Na ambientação pulsante dos teatros, shows, bares e espaços artísticos, as personagens vão vivendo e existindo com aquilo que são e podem ser. Suas complexidades compreendem as ambiguidades e tensões de todo e qualquer ser humano. Nesse clima de arte e liberdade, ainda revisitei alguns momentos em que eu queria fugir com o circo, quando criança.

Como uma correspondência profundamente honesta e aberta, Vivian descreve as situações e emoções com riqueza de detalhes e com uma sinceridade que nos insere (ao menos me inseriu) ainda mais na história. Como eixos centrais, o olhar para as questões de gênero do século XX, os tabus, as masculinidades, feminilidades e sexualidades, recortes de classe (sem muitos temas raciais, de fato”), a vivência das mulheres/garotas nas cidades grandes no período da segunda guerra mundial, as expectativas em torno do casamento, da família. Tudo está lá: a vergonha, o medo, a resignação e a recusa a tudo isso.

Acho que há sempre, na confidencialidade, um pacto selado de “ok, estou aqui e quero te contar essa história”, por um lado, e “eu te escuto e quero te escutar”, por outro. A confidencialidade é um convite para a presença, e Liz Gilbert treinou bem seu público. Cidade das Garotas é uma escuta gostosa e curiosa.

“Após certa idade, estamos todos passeando por este mundo em corpos feitos de segredos, vergonha, tristeza e feridas antigas não curadas. Nossos corações ficam inflamados e disformes em torno de toda essa dor — porém, sabe-se lá como, seguimos em frente.”

Livro: Cidade das Garotas; Autora: Elizabeth Gilbert; Editora : Alfaguara; 1ª edição. 432 pg.

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