Meu Pai (Crítica) #MaratonaOscar

Se tem algo que é ontologicamente constituído (e constituinte) de mistérios e fascínios, é a mente humana. Todo mundo já ouviu aquela história de que um terço das nossas potencialidades cerebrais permanecem desconhecidas e, ao longo dos nossos séculos de existência, diversas cosmologias e epistemologias elaboram narrativas para descrever e relatar esse fenômeno. O que Florian Zeller faz em “Meu Pai”, um dos melhores filmes do último ano, é uma viagem sensorial pela mente de Anthony (Anthony Hopkins), quem, aos 81 anos e com o avanço da demência, começa a ser traído pelas próprias memórias.

A premissa do drama é simples e é nesta mesma simplicidade que reside sua potência. Anthony mora sozinho em um apartamento e precisa de cuidados, porém rejeita as enfermeiras que Anne (Olivia Colman), sua filha, tenta lhe impor. Quando Anne diz que vai ser mudar, a situação se complica e coisas estranhas começam a acontecer. Os eventos se confundem, os lugares se transformam e o tempo se dilui ou se comprime sem controle. É na confusão mental do protagonista e em fragmentos da memória que a história se oferece, impiedosamente, a nós.

O filme é baseado na peça homônima (Le Père) de Florian Zeller, que além da direção assume também o roteiro (ao lado de Christopher Hampton) e que merece todo reconhecimento pela condução da obra. Roteiro e direção se articulam com maestria e a montagem sela o combo. Enquanto o roteiro organiza a trama pela perspectiva de Anthony, em seu processo de desorientação e demência, a direção constrói um filme que convida o espectador a uma imersão sensorial. As potencialidades residem nos detalhes e nas sutilezas – das atuações, dos cenários, das movimentações da câmera pelo espaço e nos mínimos sons ambientes.

A narrativa trabalha em cima das memórias de afetos, um trauma mal curado (a perda de uma pessoa) e da complexidade inata aos sentimentos e à mente humanos. Anne assiste seu pai se tornar um desconhecido e tenta encontrar maneiras de lidar consigo e com ele. Enquanto Anthony perde a capacidade de distinguir entre eventos passados e presentes, a montagem organiza a narrativa de modo que essa confusão seja percebida por nós em uma fluidez tão natural que nos perguntamos o que mesmo é real. Elipses temporais e fragmentações espaciais rompem a linearidade com sutileza, mas sem deixar de impactar. Como no momento em que se deslocando pelo espaço do apartamento, Anthony abre uma porta e desliza para para o corredor de um hospital, revisitando uma memória do passado. Ou a própria confusão do protagonista com a figura do genro, que assume mais de uma imagem e identidade.

A trama se concentra em ambientes fechados. A movimentação da câmera organiza os espaços mentais bem como os espaços dos afetos e da relação pai e filha, elaborando os arcos de conflitos internos e externos das personagens. Conforme o quadro de Anthony avança, os espaços entre ele e as demais pessoas (e com ele próprio) vai aumentando. O cenário constitui a própria narrativa como uma extensão dos pensamentos. O apego a objetos cênicos (o quadro, o relógio) simboliza o desespero de quem tenta se agarrar a um fio de realidade possível, para não se perder de si.

É no elenco que reside grande parte da potência sensorial e empática do filme. Hopkins e Colman, ambos já veteranos no Oscar e com estatuetas na conta, trazem uma performance que se ancora nos detalhes. Eles medem as emoções e as mínimas expressões faciais, habilidades amplamente já demostradas por ambos em trabalhos passados (Colman em A Favorita (2019) e Hopkins em O Silêncio dos Inocentes (1991), por exemplo). Olivia Colman exprime em Anne a dor de quem vai se vendo sem saída e abatida pelo cansaço do trabalho que o cuidado exige. Seu corpo e olhar carregam essa tensão. Anthony Hopkins transita entre rompantes de tristeza, desespero, fragilidade e agonia. Os coadjuvantes também desempenham um trabalho primoroso ao trazer as muitas nuances das suas personalidades indefinidas (a enfermeira que hora é Anne, a filha que hora é enfermeira, o genro que não sabemos quem é). É, sem dúvida, um drama tocante, empático e respeitoso com a experiência daqueles que começam a desvanecer os próprios sentidos.

Merecidamente, Meu Pai concorre em seis categorias ao Oscar e ainda tem estreia nas salas de cinema indefinida. Entretanto, a California Filmes lançará o filme no dia 9 de abril, nas plataformas digitais, Now, Itunes (Apple TV) e Google Play disponível para comprae a partir do dia 28 de abril, o filme ficará também disponível também para aluguel, nessas plataformas já citadas e também na Sky Play e na Vivo Play.

Assistam ao trailer e comentem comigo o que acharam do filme!

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