Nada (Crítica) – Curtas Brasil

“Eu queria poder não saber” – esse desejo de Bia, a protagonista de “Nada” (2017), representa, e quiçá sintetiza bem, a essência do curta de Gabriel Martins. E por “essência” estou longe de pressupor qualquer simplicidade no Nada – seja o filme ou o que quer que o nada venha a ser. Afinal, o que poderia ser mais chocante para um sistema que celebra a acumulação sistemática (de bens, do capital, das emoções) e a conquista da liberdade do que o livre arbítrio de escolher coisa nenhuma? É nesse paradoxo que transita a narrativa do filme.

Aos 18 anos, Bia (Clara Lima) atravessa um estágio crítico na jornada de quem quer que tenha frequentado o ensino médio: o momento de decidir os rumos do próprio destino (leia-se: prestar o vestibular. No caso do filme, o ENEM). Quando interrogada pela pedagoga do colégio sobre o que quer fazer com a vida, Bia responde, convicta, que não quer fazer nada, ao contrário de todos os outros colegas, que proclamaram respostas variadas sobre as profissões escolhidas. Chocada, a pedagoga responde a tal ofensa com um chamado à mãe da jovem. E quem quer que tenha feito visitas íntimas à direção da escola sabe bem a gravidade para tal chamado. Embora seus pais sejam carinhosos e apoiadores, Bia insiste, até o fim, que o nada é sua legítima escolha. 

“Dilemas da adolescência” é talvez um conceito guarda-chuva que, mais do que abarcar questões dramáticas e delicadas vividas, em diferentes intensidades e variações, por boa parte de nós, oculta a dimensão estrutural de um sistema cruel que impõe expectativas e normatizações sociais, subjetivas, políticas, ao mesmo tempo em que oferece a ilusão do cardápio de infinitas possibilidades. Tal infinidade caminha lado a lado com uma vastidão de corolários – e é assim o baile, é assim a música que Bia, a jovem rapper, conseguiu ouvir. 

É como se o terceiro olho que Bia carrega no gorro lhe mostrasse dimensões da vida e do ideal de ascensão social que muitos outros não conseguem enxergar. O roteiro, também de Gabriel Martins, explora bem essa dimensão paradoxal do trajeto “óbvio” para a realização pessoal e caminha explorando camadas dos ditos e não-ditos, com diálogos que extravasam inquietações e críticas. A potência do filme reside na simplicidade econômica com que destrói ilusões que sustentam nossas vidas jovens contemporâneas. A narrativa aposta nesse jogo de uma economia formal – poucos movimentos de câmera, planos comuns, encenações naturalistas, uma apatia da personagem – para um discurso denso e amplo. Bia não tem um ponto de escuta, na narrativa, a não ser ela mesma. Seus silêncios e as cenas em que está só dizem muito sobre sua subjetividade e sua apatia adolescente – que transita entre um lugar de revolta e inconformismo com a imagem de felicidade. 

O que Bia vê é o lado não-dito dessa felicidade: pessoas frustradas caminhando apertadas pelos transportes, contentando-se com pagar o aluguel no fim do mês. Mas isso não parece ser suficiente. A resposta enxuta da protagonista – “Nada” – é uma resposta às expectativas sociais, familiares, subjetivas que não oferecem o que prometem. Todo o fascínio capitalista de ser e ter tudo é tensionado neste termo.

Bia é uma jovem negra do Brasil, de modo que as intersecções entre gênero, raça e classe não poderiam se ausentar do filme e, de fato, não o fazem. Quando seus pais, trabalhadores negros de classe média, relembram que ela é a primeira pessoa da família com a possibilidade de chegar à faculdade e alcançar outros patamares na escala de ascensão, o filme recoloca quão dolorosa e complexa a liberdade pode ser. “Eu queria poder não saber” é esse lugar paradoxal do direito à dúvida, às incertezas e ao tempo.

Assista ao filme completo:

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