Mulheres imPerfeitas [Resenha]

Por: Letícia Moreira

Em Mulheres imPerfeitas – Como Hollywood e a Cultura Pop construíram falsos padrões femininos no mundo moderno, a autora (jornalista, crítica e escritora) Carina Chocano* oferece uma coletânea de ensaios que intersecciona análises e discussões mais teóricas de “diversos”** produtos culturais com a sua própria experiência pessoal e a memória afetiva de quem, como muitas de nós, cresceu rodeadas de imagens que, subjetiva e objetivamente, elaboravam códigos sobre Garotas e Mulheres e suas múltiplas adjetivações e representações.

Desenho a lápis de Dom Quixote

Sou indiferente às imagens de renascimento, a menos que o que renasça seja o sistema como um todo. Não quero ver outra mulher simbólica começando tudo de novo. Quero ver o mundo simbólico mudando para reconhecer a existência dela. Não quero ver uma garota passar por uma transformação do visual ou sair às compras com o cartão de crédito do namorado. Eu quero ver a Estrela da Morte explodir – metaforicamente, é claro.

— Carina Chocano, p. 176.

Dentro de uma tradição emergente de textos e análises sobre as figuras femininas no cinema, na TV e nas imagens da cultura midiática, considero relevante acompanhar as leituras e entender como os públicos (especialmente públicos não masculinos) concebem significações sobre o que pode se encaixar como “questões femininas” ou “questões das mulheres”, e, nesse movimento, o que mais me interpela é perceber como nossos atravessamentos nos conduzem a aprofundar certas dimensões em detrimentos de outras. É muito raro encontrar reflexões que adensam a dimensão estruturante do gênero nas relações sociais e distribuições de poder, em sua indissociabilidade com a raça e o racismo, a colonialidade, a heteronormatividade e os binarismos/dicotomias modernos. Mas isso não implica que leituras “incompletas” sejam irrelevantes. Muitas vezes o contrário.

Nesse trajeto de pesquisas e curiosidade, encontrei esse livro, que, com um texto fluido, pessoal e cheio de referências familiares à minha formação espectatorial, aborda as imagens, discutindo desde Alice no País das Maravilhas, Pernalonga, As Panteras, Frozen até as coelhinhas da Playboy, Elizabeth Gilbert ou Katharine Hepburn, perpassando temas comuns em narrativas hollywoodianas sobre mulheres, como o casamento, a maternidade, a liberdade, a loucura e histeria, e os tipos mais comuns (a personagem feminina forte, a garota, e por aí vamos). Além de recuperar temas e aspectos sobre a representação feminina, Carina resgata importantes trabalhos de autoras/es precedentes, desde pioneiras na reflexão feminista, até grandes nomes da psicanálise, da publicidade e dos estudos culturais. Creio que, mais do que um trabalho com essas imagens, a obra é um estudo da cultura, especialmente a cultura estadunidense. Carina Chocano é descendente de latinoamericanos, morou no Peru, Brasil e reside quase toda a vida nos EUA.

Como o próprio subtítulo já deixa assentado, o terreno de ataque aqui é o cinema mainstream hollywoodiano e a tal “Cultura Pop” – noção que pode parecer óbvia, mas no fundo é bem abstrata e tem me dado bastante trabalho na elaboração da dissertação de mestrado. Observando atentamente a todos os momentos em que a autora utiliza o léxico “cultura pop” no livro, fica mais fácil inferir a que universo ela se refere, mas não tão fácil a ponto de estabelecer uma explicação sólida para o termo, mas, por hora, basta dizer: cultura pop aqui são os blockbusters hollywoodianos, filmes clássicos e produtos que atravessam os tempos ou que constituíram-se como ícones de momentos ou movimentos, objetos de grande público e com sólidas bases afetivas (ou não), e que saem das fronteiras de Hollywood e se espalham por aí.

O eixo norteador, ou a figura a quem a autora pega na mão para percorrer os capítulos e subtemas, é uma uma entidade que a gente conhece bem, mas muitas vezes não sabemos nomear, que, bem parecida ao Anjo do Lar de Virgínia Woolf, aqui atende pelo nome de “A Garota“. Um perfil feminino estereotipado clássico (que ela trata textualmente como um arquétipo ou um tipo) – a garota não é uma pessoa, mas um ideia, e uma ideia que vai se reelaborando no tempo e no espaço, sempre e de distintos modos atrelada às dinâmicas dos (micro)poderes. No livro, vamos acompanhando as diferentes máscaras e transformações que A Garota assume nesse mundo hollywoodiano.

Para além das personagens fictícias, acompanhamos uma retomada à trajetória de figuras como Britney Spears, Lindsay Lohan ou Madonna, em uma curiosa comparação com as heroínas góticas dos séculos passados. Regressamos na história com uma visita à Virgínia Woolf, figuras da era vitoriana, ou Victor Hugo. Há ainda algumas seções dedicadas à reflexão sobre as jornadas das heroínas, e a autora faz um paralelo interessante com seu próprio processo de escrita e de sua formação de cultura (e de caráter, vai!) – nossas jornadas são nossas, mas são indissociáveis dos modelos exteriores e do que a(s) cultura(s) nos ensinam. E aqui, nesse entrecruzamento, me identifico bastante com o papel de estudar a cultura pop, ou como críticas de cinema, e as fronteiras e entre-lugares das nossas próprias subjetividades. Ao falar de si, Carina tem um tom honesto e íntimo, o que enriquece o conjunto da obra, sem dúvida.

“A noção de que uma mulher poderia fazer algum papel que não fosse “a garota” em uma comédia é tão distante para o mainstream que é considerada experimental, e um grande risco financeiro.”

Carina Chocano, p. 224.

A ideia de uma “Cultura Pop” e o imediato reconhecimento e conexão a esse universo, que às vezes parece ser tomado como dado, algo natural e automaticamente difundido pelos quatros cantos do universo – uma osmose culturalmente absorvida – carrega em si uma dimensão de Classe (essa, com C maiúscula mesmo!) muito forte e que é pouquíssimo (quase nada) problematizada no livro (como em muitos outros trabalhos sobre esse universo). Todas as referências culturais são, de fato, constituintes do imaginário de diversos sujeitos, em distintos territórios – são filmes da sessão da tarde, desenhos animados da TV Globinho, sucessos de bilheteria e comédias românticas atemporais – mas, cabe pensar quem de fato acessa esses produtos? Quais as condições de acesso e, consequentemente, a quem esse livro realmente se endereça? Bom, perguntas e perguntas!

Dimensões de classe, raça e sexualidades não são, no fim das contas, amplamente contempladas nas discussões. Entretanto, Carina Chocano faz um movimento bacana (e importante!) de tentar historicizar as representações, as personagens e as obras, e a historicização é um processo fundamental nesses tipos de discussões, especialmente quando muitos essencialismos fantasiados de discursos políticos caminham pelas ruas pedindo doces (ou biscoitos?) ou travessuras, de porta em porta (de feed em feed). Novamente, é uma análise mais cultural e simbólica, e até geracional, do que uma investigação profundamente teórica e analítica.

Se, assim como eu, vocês cresceram com essas referências (da cultura hollywoodiana mais comercial) e foram substancialmente afetadas por elas, esses textos podem ressoar e cutucar bastante a memória. O livro se divide em quatro partes, com várias subdivisões/subcapítulos temáticos. É uma obra que traz problematizações densas em um tom leve, viaja pelos imaginários e, mais que tudo, nos coloca perguntas e nos faz um convite para um chá da tarde (com a Alice) para conversar: e aí, como você pensa tudo isso agora? O próximo buraco** que a gente vai cair já vai ser por nossa conta e risco!

Desenho a lápis de Dom Quixote

*Carina Chocano é escritora, colaborada da New York Times Magazine. Ex-crítica de cinema e TV da equipe do Los Angeles Times, é crítica de TV e de livros da Entertainment Weekly e escritora da Salon.

— Editora Cultrix.

Referência completa:
CHOCANO, Carina. Mulheres imperfeitas: Como Hollywood e a Cultura Pop Construíram Falsos Padrões Femininos no Mundo Moderno. Tradução: Martha Argel, Humberto Moura Neto – São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2020.

Título original: You Play the Girl (2017)

Notas (e ironias)

** – “Diversos” está empregado entre aspas pois, se tratando de um recorte bem específico (a cultura pop hollywoodiana), a diversidade é relativa. Mas, dentro desse universo, os objetos, referências e produtos são diversos no que tange aos gêneros, matrizes culturais, períodos históricos, classificações indicativas, e por aí vai.

*** – A autora traça inúmeros paralelos com a obra de Lewis Carroll e eu, chulamente, tentei fazer uma piadinha.

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