Uma ode aos afetos

Por: Letícia Moreira

Esse texto é sobre Guity Pleasures (Gostos Culposos). 

Começar o ano expurgando velhas culpas (cristãs) e acolhendo a complexidade inata ao ofício de ser um bicho-humano me pareceu uma boa resolução para o então neófito 2021. Uma ideia que soou tentadora naquele momento – enquanto pulava ondas imaginárias em uma cidade sem mar – foi peregrinar por toda a trajetória afetiva que traça meu mapa (astral) como consumidora de mídias, em especial as audiovisuais, e tentar entender como os meus hábitos e traços de personalidade se talharam nesses encontros (ou, mandando a real: como diabos me tornei o que sou hoje?). 

Cá estamos, então, muitos meses depois, em uma singela súplica à libertação das mentes, dos corações e das telas (!), com um tema famoso (e, às vezes, estranhamente desagradável) que, mesmo quem não associe de imediato seu nome ao fenômeno, com certeza já o atravessou alguma vez: o tal “Gosto Culposo”. Afinal, por que não aceitar que é perfeitamente possível vibrar a volta de Sex and the City (!!!) ao mesmo tempo em que se luta diariamente para destruir o patriarcado capitalista racista supremacista branco ocidental? (Primeiro, vamos fingir que não é sobre mim e, segundo, vamos demarcar de antemão que as oposições não são assim tão simples – e pobres – como fiz, propositalmente, parecer!). O convite aqui é mergulhar de cabeça e deixar o coração falar.

Mais popular pela expressão anglófona guilty-pleasure, o conceito de “Gosto Culposo” ou “Prazer Culpado” pode ser descrito como um prazer que causaria vergonha por se afastar dos padrões do senso comum. E o tão presumido “senso comum” é um conceito chave para entender aquilo que baliza e sustenta essa expressão, mas não ele é uma entidade estática e sequer tão comum assim a todos os sujeitos. As tentativas de exemplificações ilustrativas que faço a seguir não intencionam estabelecer hierarquias valorativas, ainda que estas conformem, em várias instâncias, os constrangimentos por trás da culpa.

Conversei com as colunistas do Série a Sério, portal no qual escrevo a coluna Maratone como uma Garota! (e que reúne escritoras incríveis!), para escutar suas opiniões sobre o tema. O resultado: uma boa sessão de “abrir os corações”, com uma dose de risadas e vibrações coletivas. De imediato, pairou no ar um receio e certa desconfiança em revelar alguns dos nossos filmes, séries ou ídolos que figuram no hall dos hobbies secretos – e aí que a coisa vai ficando interessante! Primeiramente porque o exercício de responder à pergunta “Quais seriam meus guilty-pleasures?” (tentem responder antes de continuar a leitura e vocês vão entender o que estou falando!) pode nos colocar em um desafio de auto imersão profunda e desvelar preconceitos e padrões valorativos que sequer nos havíamos dado conta de estar sustentando. Segundo porque, depois de chutar o medo e soltar o verbo, descobrimos que muitos dos afetos que tínhamos em comum eram reality shows ou romances adolescentes (quase uma unanimidade!). Dos mais clássicos – como Jane Austen – aos mais comerciais, como Jude Law, KPop, Kate Winslet, De Férias com o Ex – Brasil e comédias românticas das décadas passadas. Pronto, todo mundo leve e com a sensação de abraço quentinho!

Que atire a primeira pedra quem não tem prazeres afetivos quase inconfessáveis. Alguns a gente até se arrepende amargamente, de fato: eu chamava meu cachorro (que estava vivo e comigo enquanto escrevia a primeira versão desse texto*) de “João”, “John” ou de “plíncipe”, com “L”, com total empenho em ocultar o nome que consta em sua certidão de nascimento pet – J*hnny D*pp III. Outros a gente se enche de orgulho e alegria em berrar aos sete mares, não importa a idade – sigo repetindo que eu poderia ir trabalhar vestida de Xena: A Princesa Guerreira se eu tivesse o figurino (e um trabalho fora de casa!). Mas o que pode estar, portanto, por trás dessa “culpa”? (Como se já não bastassem todas as outras culpas que colocam forçadamente na nossa conta).

Vivemos em uma cultura que estabelece normatizações e hierarquizações em todos os domínios possíveis. Nas artes e nas intelectualidades, por exemplo, as convenções operam distinções valorativas do tipo Arte x Não-arte (???), Cult x Pop, Kitschs x Bregas e por aí vai. Por trás de tudo isso descansa quase escondida uma noção chave, um fantasma que ronda secretamente (ou não) os modos como agimos, pensamos e construímos nossas personas sociais: as expectativas. A verdade é que, se encaixando ou não, estamos performando expectativas o tempo inteiro: expectativas de gênero, de feminilidades e masculinidades, de maternidade, caráter, de o que se espera de um “artista”, ou de um “intelectual”. Sustentamos imagens, muitas vezes, como estratégia de sobrevivência e aceitação nos espaços em que circulamos. E tudo bem, não se culpe de imediato. Chama-se, apenas, sobrevivência. Se, como já dizia Clarice Lispector (juro que é ela mesmo!), até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, cortar as bases sobre as quais nos forjamos nem sempre é tão fácil, não importa quão desconstruídes estejamos. Estamos juntas nessa, obrigada Clarice!.

E por que tanto drama em torno de um assunto aparentemente tão frívolo como amar Sex and the City (não sei se vou amar sem Kim Cattrall) ou querer sair na rua vestida de Xena? Porque nele se enlaçam questões importantes, como afetos, experiências e memórias. Nossos afetos são parte vital das nossas histórias e estas merecem ser honradas – ou ao menos podem nos ajudar em uma eventual jornada de autoconhecimento, onde tudo e nada são descartáveis. O “senso comum”, como usualmente nomeamos as estruturas normativas que “silenciosamente” enquadram as vidas e arranjos sociais em formatos carimbados como aceitáveis, nada mais é do que visões e ideologias hegemônicas (patriarcado, cristianismo, heteronormatividade, e por aí vai) garantindo seu lugar de privilégios. 

O problema (sim, isso aí!) é que a ambiguidade lexical entre “prazer” e “culpa” se materializa no modo como experienciamos os afetos que julgamos, de algum modo, arriscados para o conhecimento público. Embora sintamos alegria, paz ou conforto com alguma música, banda, ídolo, ou até um hábito, o que simbolize esse guilty pleasure, tal culpa ou receio acaba criando uma desconexão cognitiva que afeta – ou melhor, que buga – toda nossa onda. Acabamos (re)significando negativamente algo que, de alguma forma, é importante e simbólico para nós. Essa “ode aos afetos” é um convite para repensarmos como estamos lidando com aquilo que nos preenche e se realmente precisamos estar bem na fita do mundo quando, na real, essa fita está bem estragada. 

Comédias românticas adolescentes já funcionaram como um espaço seguro de conforto em momentos difíceis para muitas pessoas e, até hoje, apenas minha antiga psicóloga me ouviu narrar a enxurrada de lágrimas que tive ao assistir “17 outra vez” (eu, por sinal, ainda não tenho respostas a isso, juro! uma incógnita). Honestamente, Godard e Truffaut são legais, mas se, assim como eu, você não cansa de rever Bridget Jones, de calcinha e na neve, beijando Mark Darcy, ou Xena e Gabrielle em qualquer momento “subtexto”, então toca aqui! Vamos nos abraçar. 

(nota inútil: minha relação com Sex and The City – não assisti a série – tem mais a ver com uma fase da vida e um pacto de amigas do que com o enredo, a narrativa ou o elenco, em si. Memória afetiva né gente, nem sempre dá pra escolher)

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