Um teto todo seu – Virginia Woolf [Resenha]

Por: Letícia Moreira

Moro em um bairro-vila que, embora no coração da cidade, parece um vilarejo rural, de chão de terra e céu de árvores, onde a natureza sussurra vida e os animais – muitos e diversos – correm livres pelos telhados. Dia após dia, da janela do meu quarto, vejo gatos preguiçosos tomando sol ou tirando uma soneca no muro e nas telhas da casa. Dentre todos, um deles me fez parar de imediato os afazeres e contemplá-lo detidamente: o gato sem rabo. Demorei até perceber aquele ser peculiar. Lembro que, mesmo conhecendo-o pelas cores da pelagem, fiquei surpresa ao me dar conta de que era um gato sem rabo. E ele nunca mais me passou batido.

Virginia Woolf (1882-1941), uma das maiores escritoras modernas, é um ser que não passa batido. Um teto todo seu foi escrito em 1928, mas sua potência e a percepção social aguçada torna-o uma obra cujos ecos ainda ressoam fortemente na contemporaneidade. Convidada para proferir uma palestra sobre o tema “Mulheres e Ficção”, a autora opta por um caminho genial, demonstrando a originalidade de alguém que genuinamente sabe movimentar as palavras. O livro é baseado nos artigos que leu para a Arts Society, do Newnham College, à ocasião, em outubro de daquele ano.

Adeline Virginia Woolf, nascida Adeline Virginia Stephen.

“Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água? Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre? Que efeito tem a pobreza sobre a ficção? Quais as condições necessárias para a criação de obras de arte?”

Virginia Woolf, p. 41.

A palestra se destinava a jovens estudantes de uma das poucas universidades para mulheres no mundo, à época, na Inglaterra. Em lugar de desatar uma retrospectiva histórica clássica sobre as mulheres na ficção, ou de retratar diretamente as dificuldades e apontar possíveis caminhos e devires para as sujeitas na literatura, Woolf elabora este ensaio metalinguístico, que mescla ficção e realidade, relato e metáfora, revisitando espaços e temporalidades (reais e imaginadas) para tratar de um tema que, segundo ela mesma reitera, é por demais complicado: praticamente não há mulheres na ficção pois, em uma sociedade patriarcal e desigual, elas não têm condições pragmáticas nem a liberdade necessárias para escreverem ficção. Mas Virginia, sem dúvida, o diz com um refinamento e autenticidade impecáveis. Ela sugere: E se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente talentosa?

É por meio da ficção, portanto, que transitamos no texto. A autora nos convida a assumir o ponto de vista de uma personagem cujo nome “pouco importa”, mas a quem chama de Mary Benton. Mary passeia pelos cascalhos das universidades pois o gramado pertence aos homens. É barrada no gramado e na biblioteca, comparece a jantares e almoços, percorre diversos cenários enquanto reflete sobre a escrita de mulheres, em todos os tempos, na ficção ou na poesia. Assim, a autora consegue recuperar grandes escritoras e escritores, filósofos, pensadores, homens e mulheres que deixaram seus nomes, vozes e estilos nos vários gêneros e ao longo dos séculos. Mary está em busca da verdade. Mas onde reside a verdade? Então ela caça livros nas estantes e lê o que eles têm a nos dizer sobre seu tema de investigação.

“Chamem-me Mary Benton, Mary Seton, Mary Carmichael, ou qualquer nome que lhes agrade – pouco importa”

(Virginia Woolf)

O ponto central é que, nestes percursos, Woolf não só expõe as disparidades de privilégios e condições destinadas aos diferentes sexos (ou gêneros), mas reflete sobre as estruturas sociais heteropatriarcais, questionando-as, colocando perguntas, e instiga quem a acompanha a fazer o mesmo. Sua discussão abarca dimensões políticas, sociais, emocionais e psicológicas. Ela analisa o que os homens diziam sobre as mulheres e, no fim, percebe como as mulheres quase nunca diziam coisas sobre si mesmas. Também retoma as (poucas) mulheres publicadas e discorre sobre suas vidas e obras, algo inédito naquele momento.

O que se sobressai é o esforço de expor como a criação artística e literária só é possível a partir de condições e infraestruturas básicas, como “dinheiro o suficiente para viajar e vagar“, um espaço próprio, com privacidade. Espaço em uma acepção densa: “quinhentas libras por ano e um teto todo seu“. É necessária a liberdade de pensamento, de locomoção, de imaginação. E aí que entram as exposições de tudo aquilo que, até hoje, ainda nos priva de liberdade, nos encerra em lugares pequenos. Ainda que já existam um número sem tamanho de mulheres escritoras, poetas, atrizes, artistas e toda classe de ocupação, permanecemos, dia após dia, refletindo sobre as mulheres nas artes, na ciência, na política, onde permanecemos minoria. É assim nos estudos feministas de cinema, nos estudos feministas nas artes, na sociologia, e aí segue. Somos, ainda, Marys Bentons tentando entender o que se mete no nosso caminho e tentando derrubar os porteiros que nos impedem de entrar às bibliotecas.

É difícil resenhar uma obra densa e importante como Um teto todo seu. Mais difícil ainda fazê-lo sem ser prolixa. Em um dos meus trechos favoritos, Woolf se refere, metaforicamente, à mãe de Mary Seton, em uma tentativa de interpelar o passado. Ela diz: “O que nossas mães ficaram fazendo que não tiveram nenhuma riqueza para nos deixar? Retocando a maquiagem? Olhando vitrines? (…)“. Em seguida, continua: “Se ao menos a senhora Seton, sua mãe e sua avó tivessem aprendido a grande arte de ganhar dinheiro, (…) nós poderíamos estar explorando ou escrevendo”.

Acompanhei com tensão como ela desenvolveria esse argumento, e o que faz é perceber que, com toda privação a que estavam submetidas – uma vez que as mulheres não tinham autoridade sobre si, sobre seus corpos e muito menos o próprio dinheiro, que eram controlados pelos maridos – não aprender a arte de ganhar dinheiro pode ter sido seu ato de rebeldia. E são essas mudanças de chave, estes tensionamentos argumentativos, o que enriquecem a busca da verdade, a análise dos entornos, das sutilezas. Herdamos não só as opressões, mas também a coragem das mães e avós que, à suas maneiras, foram rebeldes e abriram caminhos. Woolf recapitula séculos precedentes e fabula sobre os vindouros.

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não só por duzentos anos, mas desde o começo dos tempos.”

Woolf, p. 151.

Mas e o meu vizinho gato sem rabo?

Em um jantar pomposo e afortunado, entre grandes pensadores masculinos, Mary Seton é tomada pela visão de um gato sem rabo no jardim. “A visão daquele animal abrupto e truncado caminhando calmamente pelo pátio modificou, por mero acaso da inteligência subconsciente, a luz emocional para mim. Foi como se alguém tivesse deixado cair uma sombra”. Virginia Woolf emprega a figura do gato sem rabo em um espaço ao qual ele destoa pois, ao destoar, ele expõe de imediato essa diferença, a ausência daquilo que falta. Somos nós, as gatas sem rabo: na literatura, no cinema, nos museus, nas empresas.

Embora nada tenha mudado para muitas pessoas na sala de jantar, a percepção daquela presença ressignificou tudo para Mary – Virginia, assim como ressignifica tudo, para mim e para muitas de nós, quando uma presidenta é eleita chefe de estado, ou quando uma diretora de cinema vence um grande prêmio. Quando terminei de ler a obra, imediatamente me lembrei do gato sem rabo no meu telhado (esse é real, não é [apenas] uma metáfora!) e me dei conta de como sua existência ali me fez perceber os gatos, todos, de alguma outra maneira.

REFERÊNCIA:

Um teto todo seu. Virginia Woolf; tradução Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso; [capa: Andrea Vilela]. 1ª edição. São Paulo: Tordesilhas, 2014. Título original: A Room for One’s own.

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