Los Lobos (crítica)

Às vezes, a tragédia precisa ser sentida. Ao menos, de algum modo, incutida subjetivamente no nosso imaginário (i)limitado. Como informar, tocar e fazer vistas e ouvidas, verdadeiramente, suas dores e angústias, em um mundo preenchido por imagens e notícias em fluxos incessantes? Basta o mínimo de atenção aos jornais (para não dizer ao mundo) para dar-nos conta de que a crise migratória continua assolando a vida de muita gente. Gente como a gente, do Sul, do “Terceiro Mundo”, da subalternidade social persistente, que sai do ninho para ir preparar o chão e erguer a vida dos capitães dos impérios modernos. A gente vê, a gente sabe, está em todos os lugares: fotos de crianças separadas dos pais, nos EUA. Corpos boiando no oceano. Donald Trump construindo muros, físicos e simbólicos. O ódio e xenofobia que violam corpos nas fronteiras. A gente vê em imagens, ouve em narrativas. Mas o que a gente sente?

Como fazer essa narrativa ser sentida, percebida para além dos olhos? Em Los Lobos, é o lugar da experiência infantil que proporciona uma possibilidade de saber, ver e lembrar. No filme, dois irmãos, Max e Leo, de 8 e 5 anos, chegam aos Estados Unidos com a mãe, Lúcia. Sem dinheiro ou perspectiva, ela encontra um apartamento velho, sujo e vazio, em uma periferia de Albuquerque. Enquanto se divide entre dois empregos, deixa os filhos sozinhos em casa, onde passam os dias fantasiando sobre o mundo exterior e cultivando o sonho de ir para a Disney, ainda que não falem a língua e não tenham mais ninguém além de uns aos outros. O pai ausente mal habita as lembranças do filho mais velho.

Dirigido por Samuel Kishi Leopo, que o roteiriza juntamente com Luis Briones e Sofía Gómez-Córdova, o drama mexicano é inspirado na vida do diretor. O argumento é potente ao tecer a trama a partir da rotina das crianças, das horas infinitas aguardando o retorno da mãe, do desconhecido para além das quatro paredes. A mensagem é acessada por esse ponto de vista. Daí então, o roteiro explora espacialidades e temporalidades confusas e mistura o live-action com alguns momentos de animação, o que aporta uma sensibilidade profunda ao texto. O filme estreou mundialmente no Festival de Berlim, na mostra Geração, conquistando o Grande Prêmio do Júri Internacional para Melhor Filme. No Brasil, chegou aos cinemas em 16 de setembro.

We want to go Disney, one ticket please” – é assim que o sonho americano ganha materialidade simbólica no filme. A Disney é o sonho infantil que carrega consigo algo muito maior do que a fantasia divertida dos contos de fadas. É o imaginário frouxo da democracia ideal, da terra das oportunidades, que mal se sustenta, como o inglês arranhado das crianças e a promessa não cumprida da mãe. A vizinhança é composta puramente de imigrantes: chineses e latinos (latinos aqui como um significante que engloba e engole as diversas etnias e nacionalidades latinas). Imagens de moradores de rua, nas paisagens cinzentas. Inglês, espanhol e chinês se misturam, e, embora não se compreendam lexicalmente, as personagem se compreendem pela experiência: a comunicação se dá pela dor compartilhada, pela vivência, no olhar e no imaterial, nas tradições que encontram ecos de resistência em sincretismo com o mundo em que se encontram.

Sozinhos em casa, Max e Leo escutam vozes no gravador: fitas deixadas pela mãe, memórias do avô, algumas poucas instruções da mãe para que aprendam inglês e decorem as regras de convivência. São suas únicas companhias, as vozes: uma presença-ausência, uma presença suspensa, como aquelas pessoas que não puderam ser levadas, um alento à partida necessária. É apenas após 30 minutos de filme que somos apresentados à rotina de Lúcia: uma fábrica de tecidos na qual compartilha um espaço minúsculos com inúmeras outras mulheres racializadas, todas aparentemente imigrantes. Um grande mercado, onde limpa o chão, junto com vários outros funcionários racializados, todos também aparentemente imigrantes.

Lembrei imediatamente de Françoise Vergès, no livro Um Feminismo Decolonial, no qual a autora reflete sobre os corpos exaustos das mulheres racializadas “que ilustram os vínculos entre neoliberalismo, raça, gênero e heterossexualidade” (2019, p. 19). No filme, os corpos dos brancos, dos patrões, dos Trumps, não aparecem. Eles não precisam estar, na premissa narrativa. Mas eles são inferidos e presentes – no cansaço, na escassez, por exemplo. Eles estão ali, na bandeira gigantesca na parede do mercado.

O passo ao desconhecido marca um ponto de virada narrativa. Quando Max, descumprindo as regras, sai do apartamento para brincar com outras crianças, os horizontes vão se expandido, assim como a maturidade necessária vai se aproximando cada vez mais. A “señora China” surge como um amparo e um cuidado, quase como uma alegoria às comunidades que criam coletivamente os mais novos, embora aqui o contexto e a premissa sejam outros. Figura também uma questão fundamental na vivência de grupos imigrantes: a formação de comunidades de identificação, como na Igreja, frequentada por latinos e onde todos falam espanhol, onde os que precisam de alimento (nas múltiplas acepções do termo) o encontram.

No início do filme, em voz off, a mãe pergunta a Max: “Y tu, que ves?”. Ele responde: Nada.
Entre as paisagens cinzentas, nas poucas sequências que percorrem as ruas da cidade, vemos explodir na tela cores chamativas, em pequenos detalhes: nas pessoas, em acessórios e roupas, nas casas, objetos cênicos. Cores que afirmam a vida e a existência daquelas pessoas, daqueles lugares. Novamente, a mãe pergunta: Y tu, que ves? E é essa vida, explodindo entre escombros, o que vemos.

Ficha Técnica:

LOS LOBOS (The Wolves)

Direção: Samuel Kishi Leopo

Roteiro: Samuel Kishi Leopo, Luis Briones e Sofía Gómez-Córdova

Elenco: Martha Reyes Arias, Maximiliano Nájar Márquez,

Leonardo Nájar Márquez e Cici Lau

Ano: 2019

País: México

Gênero: Drama

Duração: 95 min.

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