Ainbo: A Guerreira da Amazônia (Crítica)

Por: Letícia Moreira

A Terra é uma entidade viva. Ela vê, fala e escuta, se comunica com aqueles dispostos a compreender suas vozes. Para muitos povos nativos e originários, essa compreensão é a própria essência da existência. A Terra está sob ameaça – e nós vemos, sabemos, sentimos. Mas a maneira como o compreendemos, muitos de nós, é quase sempre superficial, fragmentada na vida institucionalizada e a mercê do corporativismo insaciável. Esse vocabulário apocalíptico parece ser o recurso formal mais próximo de uma possível imagem do Antropoceno¹.

Lá no meio da exuberante selva Amazônica, na aldeia de Candamo, uma corajosa garotinha de 13 anos recebe a visita de seus guias espirituais e descobre que sua terra natal está sob a ameaça do espírito mais maligno da floresta e é dela que depende a salvação do seu povo. Ainbo, assim, embarca na jornada em busca da Motelo Mama, o espírito mais poderoso da Amazônia, para derrotar o demônio Yakuruna. Essa é trama de Ainbo: A Guerreira da Amazônia, animação peruana-holandesa-estadunidense, que estreia nos cinemas em 30 de setembro, com distribuição da Paris Filmes.

O filme enreda uma narrativa que mescla cosmovisões nativas-indígenas com um tom mágico do imaginário infanto-juvenil para falar de ameaças (bastante) reais e atuais, sendo muito bem sucedido na missão de tratar de temas tão dolorosos e urgentes em uma linguagem leve, direta e acessível a qualquer público. O longa é a estreia do cineasta José Zelada, que o produziu com a direção de Richard Claus.

Ainbo, a heroína, tem a companhia dos espíritos-guias Dillo, um tatu, e Vaca, uma anta. Juntos, eles partem pela floresta na missão de encontrar o Yakuruna. Mas os guias não podem revelar tudo à pequena indiazinha, afinal, parte da jornada de toda heroína é descobrir por si mesma o que a espera e quem ela é. E é assim que caminhamos, sabendo tão pouco como Ainbo, que vai topando com os seres mágicos e encontrando respostas no caminho. Ela é a melhor amiga de Zumi, a jovem princesa que assume o trono da aldeia em função das doenças do pai. A amizade das duas é abalada pela descrença de Zumi em Ainbo, que não consegue provar que os espíritos existem e a visitaram. Ainbo foge, mesmo sob ameaça da amiga. A amizade das duas, entretanto, é representada com nuances interessantes de confiança e carinho, em que, não importa o que aconteça, elas sempre estarão uma para a outra.

Yakuruna, o espírito mal da floresta, é encarnado na figura do homem branco, ganancioso e explorador – o cara do agronegócio, das empreiteiras. É esse espírito mal coorporativo, que compra e vende o planeta, e que, mesmo em sua concretude destrutiva no nosso mundo, não tem uma forma única e facilmente localizável. Então o filme o representa como essa entidade amórfica, que transita pelos céus e terra, atravessa paredes, se dissipa no ar.

Há claramente uma matriz matriarcal sob a qual a trama se sustenta: a heróica jornada de Ainbo é para encontrar o espírito materno da Amazônia, a grande mãe Motelo Mama, a tartaruga gigante “que carrega todo o mundo no casco”, e neste percurso, a pequena guerreira é guiada pelo espírito da sua mãe, uma hábil guerreira arqueira a quem ela não conheceu. Tal como em muitas cosmologias não-eurocêntricas, o matriarcado, a figura maternal, simboliza a geração da vida – não no sentido estritamente biológico – mas vida em um sentido de movimento, de renovação, da geração de tudo que possibilita as existências, os acontecimentos. O filme trabalha esse imaginário de um modo muito potente, sem cair em armadilhas binárias-modernas limitadas. As relações entre as personagens escapam de um paternalismo dualista onde os corpos têm funções hierárquicas pré-estabelecidas. As relações são mais profundas e a ligação com a terra, a natureza, é também parte constituinte de cada ser.

No filme, a mensagem principal é talvez a mensagem da preservação ambiental, da intrusão das máquinas e do capitalismo em sua pior faceta. Mas ele vai muito além. É um bom filme para ver em família, fomentar conversas e debates.

Me parece que, nesse tal Antropoceno, não é só a natureza que é violentada e roubada, mas o nosso próprio entendimento de natureza, da nossa relação com a terra-mãe, também nos é tirada pela alienação. Não estamos lá na selva, não a vemos. Ela também nos é roubada das vistas, ocultada das grandes mídias e dos grandes centros urbanos, sitiada pelas empreiteiras. A Pacha Mama, Terra Mãe, Gaia. Mas não é preciso estar na selva para ser a selva, para sentir nossa consubstancialidade com ela. O pensador e filósofo indígena Ailton Krenak sintetiza belamente nossos tempos:

Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, a todos.

(KRENAK, 2019, p.49²)

¹ – Antropoceno é o conceito que propõe designar a atual era geológica, em que a interferência humana na Terra é tal que deixa marcas significativas no planeta, ameaçando as fontes de vida e as paisagens.
² – KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras, 2019.

Assista ao trailler:

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